sábado, 11 de abril de 2020

COVID-19: Factos incertos, estatísticas falsas, percepções erradas


Nos dias que correm, somos assolados por diversas dúvidas:
      a) qual é realmente a perigosidade deste vírus? 
      b) podemos confiar nas estatísticas oficiais sobre a pandemia?
      c) a reacção está a ser proporcional à ameaça ou há agora um excesso de zelo do tipo lava-culpas?
      d) o que devemos recear mais: os efeitos da epidemia ou um eventual colapso económico?
      e) o que se deverá fazer?

Qual é realmente a perigosidade deste vírus?

A verdade nua e crua é que ninguém o sabe ao certo, embora pareça bem inferior ao que se chegou a temer. O que não é propriamente um motivo de alívio, porque há grandes e intrigantes disparidades na taxa de mortalidade da pandemia em diversos países europeus. Vários factores podem explicar essas disparidades, mas também não se sabe em que proporção: a situação geográfica, os possíveis vectores de contágio, as medidas de contenção tomadas, os tempos de resposta, os meios sanitários à disposição, a organização e o apetrechamento hospitalares, o grau de cumprimento das regras higiénicas e das quarentenas pelas populações locais, as mutações do vírus que vão surgindo, a agressividade das estirpes que mais assolam cada país. E ainda podemos juntar ao rol a composição etária, étnica e genética das regiões afectadas, os factores climáticos e metereológicos, a eventual influência dos programas nacionais de vacinação contra outras doenças, etc... Enfim, um cocktail de variáveis que dará assuntos de pesquisa para muitos anos, mas que não nos dá agora pistas seguras.
No imediato, e apesar das farroncas precipitadas de alguns governos, todos estão a navegar à vista, com os olhos postos nos outros países e nas estatísticas. E esse é um outro problema, como veremos.

Eis para já o que consta na imprensa quanto à mortalidade: 3% dos infectados nos EUA e Canadá, um pouco mais (3,5%) na Ásia, 5% no conjunto da África e uma média de 8% na Europa, com alguns países aparentemente bem abaixo dela (como Portugal e Alemanha) e outros acima (como Espanha e Itália). Mas estas percentagens são apuradas em relação apenas aos casos diagnosticados, pelo que as percentagens reais são desconhecidas.
A maior taxa de mortalidade na Europa pode ser explicada pelo facto de ser o continente com uma população mais envelhecida ou de estar a braços com mutações do vírus mais agressivas, entre outras hipóteses. Mas não é crível que os diferentes sistemas estatísticos nacionais tenham um grau de fiabilidade idêntico em toda a parte, pelo que estas comparações podem ser bastante enganadoras.

Podemos confiar nas estatísticas oficiais sobre a pandemia?

Infelizmente, não. São muito rudimentares. Não sabemos o número real de infectados nem o número de óbitos realmente provocados pela acção do vírus.
Todos os dias se anuncia o número já conhecido de infectados, mas toda a gente percebe que o número real é bem superior e totalmente desconhecido. Por várias razões: o número disponível de testes tem sido sempre muito escasso; o número de testes efectuados foi ainda menor, devido às habituais atrapalhações da logística e à quantidade limitada de laboratórios, equipamentos e reagentes; a cada dia que passa, há ainda milhares de testes que aguardam os resultados laboratoriais; e principalmente porque a esmagadora maioria da população infectada (estima-se que cerca de 80%) é assintomática ou só apresenta sintomas discretos.
O que se pode concluir daí? Se a capacidade de testar é ainda muito limitada, se a detecção de casos depende dela e se os testes se aplicam sobretudo aos casos sintomáticos, o número de infectados será decerto muito maior. Mas quantos? Alguns matemáticos estimam que os casos reais sejam, pelo menos, dez vezes superiores aos casos confirmados. E isso, a ser verdade, é uma boa notícia: significa, por esse prisma, que a letalidade do vírus é muito menor do que o cálculo oficial, talvez dez vezes menos ou menor ainda. Mas não é para menosprezar: a taxa de mortalidade entre os infectados conhecidos aproxima-se agora entre nós dos 3% e mantém uma tendência lenta e firme de subida. Duas semanas antes, era cerca de 2%.

Todos os dias se anuncia o número de mortos apurados, mas a verdade é que não se tem distinguido entre os que morrem com o coronavírus presente no organismo e os que morrem por causa do coronavírus, ou seja, pela acção específica deste. Nem sequer é distinção que seja sempre clinicamente fácil e não há muito tempo a perder com isso, pelo que vai tudo parar ao mesmo saco. Todas as mortes de pessoas a quem tenha sido diagnosticado o covid-19 são registadas como sendo causadas por ele, como se outras causas de morte natural tivessem deixado de provocar baixas entre os infectados. Ora isto é irrealista, sobretudo se atentarmos nas faixas etárias em que os óbitos mais ocorrem.

Especificando um pouco mais: sabemos que a esmagadora maioria dos óbitos parece resultar de uma conjunção do novo coronavírus com várias outras patologias pré-existentes no mesmo indivíduo, o que significa que o vírus é muito mais letal para quem já tenha uma idade avançada e um grau de morbidez elevado, e que vitima sobretudo quem já ultrapassou a esperança média de vida ou está perto de a atingir.

Mas será o número de mortes apenas aquele que nos dizem? Nem pensar. Em Portugal, desde o final da primeira semana de Março até aos primeiros dias de Abril, registou-se um acréscimo anormal de óbitos acima da média dos últimos dez anos e também acima da média dos últimos três. Mesmo se descontarmos os óbitos oficialmente atribuídos ao covid-19, restam mais de 800 óbitos por explicar, um desvio de 7% em relação ao expectável, desvio esse que começou a manifestar-se apenas uma semana depois de terem sido detectados os primeiros casos de infecção. Pelo menos uma parte destas mortes será consequência do coronavírus em pessoas que nunca foram testadas.
Parece pois que afinal o tão apregoado “milagre português” de baixa mortalidade se deve apenas ao facto de muitas mortes causadas pela pandemia não terem sido registadas como tal. Por cada óbito atribuído ao coronavírus, ficaram mais três por explicar, segundo os investigadores. Se os tomarmos em consideração, concluiremos que esse “milagre português” foi apenas operado pelas falhas da estatística e não pelas virtudes lusas da contenção, nem tão pouco pela clarividência das autoridades.
Falhas casuais ou intencionais? Ficamos a matutar.
A criatividade contabilística dos gregos serviu-lhes em tempos para conseguirem entrar na zona euro. A nossa criatividade estatística talvez nos sirva para fazermos o papel de “exemplo a seguir” no combate à pandemia e marcarmos uns pontos nas instituições europeias. Mas convém não nos iludirmos.

Todos os dias se fala das virtudes da quarentena e do progressivo achatamento da curva de evolução da doença, mas na ausença de vacina ou remédio eficaz (e para além de eficaz, disponível nas quantidades necessárias), apenas estamos por enquanto a prolongar e a diluir no tempo as consequências da epidemia, enquanto se esperam milagres rápidos vindos das empresas farmacêuticas. Mas por quanto tempo se consegue aguentar isto? Quantas vidas teremos de destruir economicamente para salvar outras clinicamente? E quanto tempo faltará para a população de baixo risco se impacientar?

A reacção está a ser proporcional à ameaça ou há agora um excesso de zelo do tipo lava-culpas?

Sim, é uma pergunta legítima. A natureza humana é o que é.
A princípio, a reacção das autoridades foi desvalorizar o risco e protelar as medidas. A preocupação dominante era não beliscar o anunciado excedente orçamental, para que os políticos envolvidos brilhassem na conjuntura. À impreparação juntou-se o desleixo, à falta de planeamento juntou-se a falta de meios. Quando se tornou impossível continuar a ignorar a ameaça sanitária, havia que salvar a face e encobrir responsabilidades. Perdidos por cem, perdidos por mil. Para compensar a incúria, veio o excesso de zelo. É sempre assim.
Não, não se admirem: mesmo no meio de uma pandemia, a política continua. Só o cenário muda.
Quem na véspera da crise não fez nada do que devia, ou pouco mais que nada, quer amanhã que se pense e diga que fez tudo o que podia, ou o máximo que estava ao seu alcance. Objectivo: que nenhum partido seja desacreditado, que nenhuma equipa política seja responsabilizada. Conseguido isso, pouco importam os danos colaterais. Como é tradição, o cálculo político não se faz a retalho, faz-se por grosso.

O que devemos recear mais: os efeitos da epidemia ou um eventual colapso económico?

Pergunta bastante difícil, hein? Vamos de novo aos números. Numa altura destas, de mentes confusas e amedrontadas, talvez eles possam ainda ajudar-nos.
Passaram quarenta dias desde que se detectou o primeiro caso confirmado de infecção pelo coronavírus, e havia já então cem outros casos suspeitos. Houve entretanto 470 óbitos que lhe foram atribuídos, sem que se saiba exactamente quantas dessas pessoas infectadas morreram realmente por causa do coronavírus e não por outra causa simultânea. Mas desde o início da primeira quarentena passaram apenas três semanas e já vamos em quase 30 mil empregos destruídos, enquanto 120.000 trabalhadores independentes perderam parte substancial do seu rendimento.
Bastante pior, em termos proporcionais, estão as coisas nos EUA: para 425.000 casos confirmados de infecção e cerca de 18.000 mortes, havia já 17 milhões de empregos destruídos. Grosso modo, por cada óbito perderam-se quase mil empregos. Em Portugal, perdem-se uns sessenta, se acreditarmos muito ingenuamente que ninguém em lay-off acabará no desemprego.

Desde o início desta crise sanitária, houve 266 doentes recuperados. Muitos terão de ser vigiados durante meses para se perceber as reais sequelas deixadas pela doença. Entretanto, 642.000 trabalhadores assalariados já viram os seus empregos colocados em regime de lay-off. Terminada a quarentena e o apoio estatal, quantos deles se irão perder, quantos serão recuperados? Ninguém sabe.

Havia que tomar medidas, anunciar decisões impopulares, impor restrições severas? Claro que sim. Mas será que a reacção foi proporcional à ameaça ou ao pânico instalado? Retrospectivamente, não deixa de ser impressionante como em menos de duas semanas se passou de oito a oitenta. Desde quase desprezar o problema até decretar uma quarentena severa foi um ápice. Para uns, a quarentena veio tarde. Para outros, veio em excesso. Mas dada a enormidade dos danos económicos e pessoais que vai provocar, chegou a altura de pensar o que é mais perigoso no curto e médio prazo, se a doença, se a cura. Será que o remédio utilizado é o mais adequado? E está a ser administrado na dose certa? Talvez a resposta seja não. Talvez seja uma overdose.

A não ser que saiam depressa vários coelhos gordos da cartola do prestidigitador-mor do reino, poderá não faltar muito para que o pânico económico iguale o pânico sanitário, ou até o supere. Há já muita gente a sentir-se entre a espada e a parede, cada vez mais sem dinheiro para pagar as contas e governar a casa. Há já muitas pequenas empresas a ir pelo cano, destruindo o trabalho e o investimento de anos. E o empobrecimento não é bom conselheiro, tal como o medo.

O que se deverá fazer?

Voltemos às estatísticas, ainda que manhosas.
Pelos números oficiais, abaixo dos 60 anos morreram apenas 20 pessoas por causa do coronavírus e abaixo dos 40 não morreu ninguém. É muito, em termos absolutos? Em termos estatísticos é pouco mais que nada. No ano passado morreram cerca de três mil e quinhentas pessoas só em Janeiro e Fevereiro por causa do surto gripal e da vaga de frio e não houve nenhum alvoroço, nem o país parou.
Na média dos últimos três anos, faleceram em Portugal cerca de 111.793 pessoas por ano, 9316 por mês, 306 por dia.
Supostamente por causa do coronavírus, “a solo” ou conjugado com outras patologias graves, no espaço de um mês morreram 470 pessoas, 450 delas acima dos 60 anos, 402 delas acima dos 70 anos, 302 delas acima dos 80 anos. Ora a esperança média de vida situa-se nos 77 anos para os homens e nos 83 para as mulheres, o que dá uma média de 80 anos no geral, números redondos. O que mostra que cerca de dois terços dos óbitos ocorreram após ser atingida ou ultrapassada a esperança média de vida e quase todo o terço restante já bastante próximo dela. Como é óbvio, a “esperança média de vida” não implica que todos devem morrer só depois de a atingirem, pois se trata de uma média. (Creio que o Sr. de La Palisse não diria melhor…)
Quantas mortes naturais teriam entretanto ocorrido, sem a intervenção do coronavírus? E quantas ocorreram com ele, mas não só por causa dele? Algumas, decerto. Também é necessário ponderar isso, ou estaremos a desvalorizar os outros factores relevantes, distorcendo a interpretação das estatísticas. A racionalidade manda que se pondere tudo.

Portanto, em termos epidemiológicos e demográficos, não estamos a ser atingidos por um tsunami. A coisa é bastante grave, sem dúvida, mas não passa de uma tempestade tropical, embora capaz de grande devastação. Mas seremos certamente atingidos por um tsunami económico e civilizacional, se uma quarentena tão drástica se prolongar por mais alguns meses. E a reconstrução, na melhor das hipóteses, demorará anos; na pior, décadas.

Portanto, ponderem-se os riscos e as consequências dos dois lados.
Decretem-se todas as medidas sanitárias convenientes, apertem-se as regras e a vigilância, dê-se toda a formação e equipamento protector que forem necessários, mas ponha-se depressa o país a trabalhar. Em tempo de guerra, trabalha-se. Suprimem-se algumas actividades perigosas e supérfluas, mas trabalha-se. Resguardam-se e protegem-se escrupulosamente os mais vulneráveis, mas trabalha-se. Poupam-se os mais débeis, mas trabalha-se.

E como já se percebeu que não vai chover dinheiro grátis da União Europeia, e que todo o que vier é para pagar, quanto mais depressa recomeçarmos, melhor. Antes que seja o descalabro. Já não há pachorra, já ninguém tem pachorra para ouvir ministros das finanças portugueses a falar outra vez do espectro da bancarrota.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Não há oito que não dê em oitenta...


No princípio, era a impreparação.
Depois de tudo quanto já se leu e ouviu, depois de tantos vídeos e notícias postos a circular sobre o assunto, ficámos todos a saber que já era esperada uma pandemia, mais ano menos ano. Só não se sabia quando, qual ou de onde viria. Mas sabia-se que viria. Vários especialistas alertaram, várias organizações advertiram, e até figuras mediáticas como Bill Gates deram conferências e entrevistas premonitórias sobre o perigo que todos corríamos. Mas, pelos vistos, os governos tinham outras premências em que pensar. Ninguém se preparou, nem sequer os países mais evoluídos. Como se tornou óbvio, prevenir uma emergência de saúde pública e proteger dela as populações não estava sequer perto do topo das prioridades. E não foi só em Portugal, foi praticamente em todo o lado, se é que isso serve de desculpa a alguém.
E eis o mais incompreensível: apesar de não se poder saber de antemão se uma eventual epidemia se transmitiria por via aérea ou por contacto, ou por ambas as vias, ou por outra qualquer, nenhum país tinha sequer uma reserva estratégica das coisas mais simples e baratas para enfrentar uma situação destas: nem viseiras, nem máscaras, nem luvas, nem batas, nem zaragatoas, nada. Muito menos um plano de contingência para a produção de ventiladores, filtros, fatos de protecção ou qualquer outra coisa que fosse precisa…

Após este mau princípio, veio o desleixo.
Já a epidemia grassava nos países do leste asiático e ainda por cá se pensava que, à semelhança das anteriores, não iria ser nada connosco. Isto apesar da enorme mobilidade geográfica nos nossos dias. Aparentemente, tudo o que se fez foi ficar a monitorizar a situação. Não se aprovisionou material, não se fizeram planos adequados, não se formou pessoal. Nas fronteiras e nos aeroportos, continuou a entrar quem quis, de onde quis, sem ninguém ser submetido a um breve inquérito ou a um mero teste de temperatura. Nada disso dava jeito e portanto não se fez nenhum controle, nenhuma triagem. E mesmo depois de já ter sido declarada oficialmente a pandemia, ainda se ouviu uma directora-geral a desvalorizar a situação e as próprias recomendações da Organização Mundial de Saúde!

A seguir, veio a demagogia irresponsável.
Todos se lembram de ouvir a nossa ministra da Saúde e outros responsáveis do pelouro dizerem-nos que estava tudo preparado para qualquer eventualidade e que tinham sido feitos planos de contingência. Viu-se. Quando surgiu o primeiro caso suspeito em Portugal, percebeu-se logo que nem os operacionais do INEM sabiam o que fazer. Limitaram-se a enclausurar o desgraçado numa ambulância durante horas e ficaram à espera que alguém lhes desse instruções, sem que ninguém lhas soubesse dar em tempo útil. Sabemos como acabou o episódio. Foi o escárnio geral. No ridículo da situação, ainda quem mostrou mais discernimento e informação foi o dono da fábrica onde o caso ocorreu, mesmo sem ter qualquer formação profissional na área da saúde. Lamentável.

O passo seguinte foi o improviso acelerado.
Felizmente, é nisso que os portugueses são bons. Quando surgiram novos suspeitos e os primeiros infectados, no meio do pandemónio que rapidamente se instalou e com a carência de meios que se sabe, lá se foi fazendo qualquer coisa de útil e acertado, ainda que sempre a olhar de lado para os países onde a crise ia mais adiantada e para os outros onde ainda não tinha chegado em força. Em vez de se antecipar aos acontecimentos, o governo foi tomando medidas em sintonia com o grau de alarme da população e dos diversos serviços hospitalares. Actuação desastrada, de um ponto de vista sanitário, mas politicamente hábil. Chegou talvez para salvar quanto baste a imagem pública de quem tinha responsabilidades, excepto perante aqueles que sabiam quem mentia e que meios faltavam. Como não podia deixar de ser, mentiu-se muito, fingiu-se muito.

O próximo capítulo foi o estado de emergência.
Veio logo a seguir aos primeiros óbitos atribuídos ao novo coronavírus. Restringiu-se a circulação de pessoas e a actividade económica. Decretou-se a quarentena, aplicada em diversas partes do país com entendimentos diversos e com rigor variável, mas num crescendo de intensidade e de vigilância. Está a dar os seus frutos, mas serviu só para ganhar tempo, para que os hospitais pudessem ser preparados, para que os utensílios pudessem ser encomendados e adquiridos, para que os procedimentos pudessem ser oleados. Ou seja, para fazer tudo o que já devia ter sido feito antes e não foi.

A seguir, têm vindo as medidas drásticas.
Confinamento forçado, como se do cumprimento escrupuloso dele por todos dependesse evitar o apocalipse. Estabelecimentos encerrados a eito e a preceito. Muitos milhares de empresas destruídas e outras agonizantes, como se tudo fosse um incidente passageiro e em breve tudo voltasse à normalidade. Falta de racionalidade na ponderação dos riscos sanitários e dos riscos económicos. Falta de tratamento diferenciado das faixas etárias e dos grupos de risco. Paralisação quase total de um país que em breve acordará para uma nova pandemia: a do desemprego e do subemprego, a do rendimento insuficiente para os encargos já assumidos, a da perda de património e de nível de vida, a da subsidiodependência em relação a um Estado tutelar que não imprime dinheiro e que já não consegue absorver os mesmos recursos, a do desespero de quem precisa de apoio económico e não encontra quem lho dê a tempo e horas, a incapacidade económica dos idosos para se tratarem, a pressão fiscal e contributiva que se adivinha para voltar a pôr as contas públicas em ordem.

Tinha de ser assim? Não.
Não há ainda um único óbito causado pela pandemia abaixo dos 40 anos de idade, e se vier a haver não terá qualquer significado estatístico, nem ocorrerá necessariamente só por causa dela. Mesmo abaixo dos 60 anos, a mortalidade é quase despicienda: menos de 4% do total de óbitos e apenas um milésimo dos infectados (dos que já foram confirmados, porque os reais ninguém sabe quantos são, mas serão muitíssimo mais, dado que a esmagadora maioria dos casos é assintomática). Isto é: por cada mil infecções diagnosticadas, morre uma pessoa abaixo dos 60 anos, e muito provavelmente, como tem informado a Direcção-Geral de Saúde, porque acrescentou esta infecção a outras doenças crónicas pré-existentes, ou seja, sucumbiu a um misto de patologias. Nestas faixas etárias pré-seniores, felizmente, a pandemia parece ser bastante selectiva e parcimoniosa.

Dito isto, não se consegue compreender o seguinte: por que se tenta manter quase um país inteiro fechado em casa? Por que não pode ir trabalhar quem tem menos de 40 anos, se estiver saudável, com os devidos resguardos e precauções? Por que não hão-de fazê-lo também os que têm menos de 50 ou de 60 anos, se o desejarem e se sentirem em condições, mas dispensando generosamente quem tenha alguma doença crónica ou algum historial clínico de risco, ou quem se sinta realmente ameaçado ou amedrontado pela epidemia? Por que não nos concentramos em proteger os que são clinicamente mais débeis e os maiores de 60 anos, se é nesses que se concentra esmagadoramente a mortalidade do novo coronavírus? Por que não os confinamos sobretudo a eles e os protegemos criteriosamente do contágio por todos os meios ao nosso alcance (incluindo também aqueles mais dispendiosos que uma economia a funcionar pode conseguir gerar e proporcionar-lhes)?

Últimas questões, de índole sanitária: e se todo este confinamento indiscriminado fosse afinal um erro colossal, privando a população menos idosa de ir obtendo naturalmente uma imunidade espontânea, gerada a partir de um contacto de baixa intensidade com o vírus, enquanto ele está ainda menos disseminado do que virá a estar? E se esta tentativa de nos pôr a todos numa redoma domiciliária nos expuser mais tarde a um perigo maior, por falta de imunidade espontânea, se viermos a estar expostos ao mesmo vírus numa concentração muito mais elevada ou a uma outra estirpe mais agressiva?

Pessoalmente, tenho a legitimidade moral para questionar tudo isto porque pertenço a um grupo de risco e tenho consciência disso. E percebo, porque não é assim tão difícil, que até as autoridades de saúde andam ainda às apalpadelas, sem saberem com segurança o que fazer, embora se refugiem em linguagem técnica e noções de manual. É um fenómeno novo e ainda ninguém sabe bem como lidar com ele. O facto de muitos países terem optado por idênticas estratégias e procedimentos é sobretudo um fenómeno de mimetismo, não de consenso científico. Mas não parece haver muita racionalidade em algumas das opções tomadas.

Oxalá a hecatombe económica não venha discretamente a provocar mais baixas do que a própria pandemia... Um empobrecimento abrupto e generalizado poderá trazer consigo escassez de bens, criminalidade, subnutrição, subinvestimento em estruturas e equipamentos de saúde, muitas doenças mal tratadas ou sem tratamento por motivo de carência económica ou de meios hospitalares, esgotamentos, depressões graves, suicídios, desespero, eventualmente tumultos civis, comportamentos de risco e vários outros fenómenos deficientemente processados pelas estatísticas, mas nem por isso menos reais.

Haverá bom senso suficiente para lidar com uma situação tão complexa e multifacetada? E mesmo para pensar contra a corrente, se necessário? Por enquanto o que parece é que alguém provocou um estampido e as gaivotas debandaram todas do areal… Estará a nossa reacção a ser proporcional à ameaça? Ou apenas à incerteza e ao pânico que ela causa? Ainda não está claro. Mas precisamos de o saber DEPRESSA, porque o país está a afundar muito rapidamente…
E aviso: não subestimemos os efeitos de um colapso económico, porque os danos não serão apenas económicos. Longe disso. E iremos arrepender-nos amargamente.