sábado, 6 de maio de 2017

A União Europeia, o Brexit e os demónios à solta

É confrangedora a curteza de vistas com que a União Europeia está a tratar a questão do Brexit.

Talvez a saída do Reino Unido seja um erro histórico, como alguns dizem. Lamentavelmente, a mim parece-me que não. Mais do que outros motivos, a recusa das instituições europeias em refrear a imigração descontrolada, perseverando numa política liberal de acolhimento e de circulação quase irrestrita de migrantes e refugiados, ademais impedindo obstinadamente o Reino Unido de lançar mão de algumas defesas necessárias contra os excessos migratórios de que tem sido alvo, na prática não lhe deixou outra opção. Não apenas por vontade da maioria do seu pessoal político, mas por vontade referendada da sua população, cada vez mais farta de sentir o seu país descaracterizado e cada vez menos seu, com o ónus adicional (e relativamente traumático) de uma ex-potência imperial ver as suas leis cada vez mais feitas fora de portas. Nestas coisas, os aspectos psicológicos e históricos contam sobremaneira.

Depois de séculos de férrea tradição diplomática e empenho militar em manter na Europa uma espécie de “balança de poder”, destinada a evitar o advento de uma qualquer hegemonia continental que lhe fosse hostil e que ameaçasse a sua independência, os seus interesses comerciais ou as suas possessões coloniais, o Reino Unido tem sido relativamente impotente para travar uma hegemonia partilhada franco-alemã, que leva por arrastamento as respectivas zonas de influência e está a conseguir moldar a seu modo as regras da convivência europeia. Estas regras têm vindo a consolidar-se, não obstante o descontentamento que grassa nalguns países do sul e do leste, por efeito natural do peso económico e demográfico da Alemanha e da França, acrescentado pelos apoios dos outros países de expressão francesa ou germânica. Na prática, estas duas potências estão paulatinamente a conseguir, por via política e negocial, e graças também ao seu músculo financeiro e diplomático, o que durante muitas gerações não conseguiram pela via militar: impor a sua vontade na Europa. Fazem-no por enquanto de forma partilhada e mais ou menos concertada, embora se vá tornando evidente que a própria França está a ficar para trás nesta liderança, vulgarmente designada como o “motor europeu”. E, de mansinho, um projecto ainda não assumidamente federal vai assim ganhando corpo, à revelia das identidades e soberanias nacionais, cada vez mais desgastadas, sem que nunca se tenha tirado a limpo, em escrutínio democrático claro, se os europeus preferem “uma Europa das pessoas”, “uma Europa das regiões” ou “uma Europa das nações”, para além de outras hipóteses possíveis. Ou seja, vamos marchando em frente, com tropeções aqui e ali, conforme os dirigentes alemães e franceses vão querendo, acolitados por outros países que sempre se apressam a querer o mesmo que eles.

O Reino Unido, sendo uma das três grandes potências desta nova Europa em vias de unificação, sempre guardou reservas em relação ao casamento de conveniência das outras duas, não apenas por uma questão de ter finalmente de enfrentar uma hegemonia relativamente adversa, mas porque as tradições britânicas, bastante mais liberais do que as do continente em diversas matérias políticas e económicas, se têm por vezes chocado de frente com os excessos de regulamentação e burocracia impostos pelos continentais, através das novas instituições europeias. Mas os grandes pomos de discórdia têm sido as orientações encapotadamente federalistas dessa recente supremacia franco-alemã e a torrencial invasão migratória que tem assolado as Ilhas Britânicas, com inúmeros efeitos negativos, sem que estas possam legitimamente travá-la no actual quadro jurídico da União.

Recusando-lhe um acordo que pudesse acomodar melhor a permanência do Reino Unido na UE, nem que fosse ao abrigo de um qualquer estatuto de excepcionalidade (que nem sequer seria caso único, porque outros países o têm sob diversas formas), e fazendo vista grossa aos níveis de descontentamento interno e eurocepticismo que por lá grassam, as instâncias europeias acabaram por encurralar o Reino Unido numa alternativa extrema, a de escolher entre a submissão ou a saída, confiando sempre que prevaleceria eleitoralmente a primeira. Enganaram-se. E pior do que isso, não estão agora dispostas a reconhecer o erro e emendar a mão, o que, bem vistas as coisas, até nem seria demasiado difícil e problemático no cenário de uma Europa a várias velocidades. Bem mais dramática, como já está sobejamente à vista, é a avalanche de consequências que essa intransigência ameaça provocar, e ainda a procissão vai no adro.

No fim de contas, e sem exagero, pode dizer-se que foi a União Europeia, com a sua teimosa inflexibilidade, que precipitou este desfecho, que aliás se arrisca a não ser um episódio isolado. Mas os líderes e representantes dos outros países da União preferem não ver as coisas assim, pelo menos até serem mais seriamente confrontados com a real possibilidade de saída de algum outro país (e da próxima vez, quem sabe, talvez um dos países fundadores). Não esqueçamos nunca que foi na França e na Holanda que o Tratado Constitucional foi rejeitado em referendo.

Independentemente do que se pense nesta matéria, a UE está agora a querer demonstrar a força dos fracos, isto é, a querer fazer do Reino Unido um caso de punição exemplar para que o fenómeno não se repita, mas no fundo consciente de que a sua coesão está mais fissurada do que convém admitir e que enfrenta sérios riscos de novas brechas. Como se tem visto, o descontentamento instalou-se em muitos países, vai em crescendo e a União já não parece ter a mesma força atractiva que teve no passado. Nada que não se possa remediar, mas por enquanto é esta a situação.

Ora talvez seja um erro histórico bastante maior a demonstração de arrogância e espírito retaliatório que a União Europeia está actualmente a fazer em relação ao Reino Unido. Algo de que talvez venha a ter motivos bastante fortes para se arrepender, mais cedo do que tarde.

O bom senso aconselharia a que se tentasse manter o Reino Unido politica e economicamente tão próximo quanto possível da União Europeia, conservando-o numa zona de comércio livre, não necessariamente pensando na eventual hipótese de um futuro regresso ou de uma reversão do Brexit antes de ele estar definitivamente consumado, mas porque seria bem melhor manter uma estreita parceria com o Reino Unido do que vê-lo constituir ou integrar um bloco económico rival, ainda por cima bem aqui ao lado. Algo que este país, pelas suas relações privilegiadas com a Commonwealth e com todo o restante mundo de língua inglesa, muito especialmente os EUA, pode conseguir sem excessiva dificuldade. E com uma agravante: é que pode vir a funcionar como uma espécie de paraíso fiscal e polo de captação de investimento, com algumas vantagens competitivas na atracção dos negócios, mercê de um espírito económico mais liberal, mais pragmático e menos propenso a regulamentações excessivas. Em suma: a cooperação seria bem melhor que o duelo, que não deixará de infringir lesões a ambos os lados, seja qual for o lado que se ressinta mais.

Por outro prisma, a UE tem bem mais de quatro milhões dos seus cidadãos a viver e a trabalhar no Reino Unido, enquanto este apenas tem perto de um milhão instalado na UE. Convenhamos que se trata de um trunfo considerável: se as posições se extremarem em relação à concessão de vistos e ao direito de permanência, a UE ficará largamente a perder, tendo em conta não só a diferença dos números, mas também o facto de a economia continental ser em média menos dinâmica do que a britânica e, portanto, serem de esperar maiores dificuldades de reabsorção de um vasto contingente de regressados. E o problema poderá nem se colocar tanto pelo lado do Reino Unido, se as partes se encaminharem para um sistema de quotas iguais ou, em larga medida, menos favoráveis para os migrantes continentais do que a situação actual.

Há também a questão da defesa e segurança europeias. O Reino Unido tem sido, a uma considerável distância, a principal potência militar da União Europeia e aquela que possui os melhores serviços de informações. Passar a tê‑lo fora de um qualquer esquema europeu de defesa, já de si ainda débil e embrionário, não só fará as delícias dos potenciais inimigos da Europa como pode vir a revelar vulnerabilidades difíceis de colmatar a curto prazo. Mas quase passa sem dizer-se que, por enquanto, a UE não fareja perigos sérios ou iminentes nas suas fronteiras externas e por isso não parece muito preocupada, vivendo naquela típica descontração próxima da inconsciência. Ainda não percebeu que enfrenta outras ameaças além da Rússia e do terrorismo, que de resto também não são levadas tanto a sério como a retórica política e diplomática pode fazer crer. A UE continua a comportar-se, a começar pelos seus orçamentos de defesa, como se nenhum perigo sério andasse a rondar-lhe as fronteiras. Ainda não percebeu os riscos que corre a sul nem a ameaça potencial que pode vir a representar a Turquia, se as relações com este país azedarem mais ou se vierem a tornar-se necessárias medidas repressivas, restritivas, desfavoráveis ou consideradas discriminatórias contra os milhões de migrantes turcos que já assentaram arraiais na União. Ninguém pensa nisso, mas a diáspora turca pode vir a ser uma questão tão explosiva como o foi em tempos a diáspora alemã.

Os iluminados de Bruxelas também ainda não anteciparam as desvantagens colossais de o Reino Unido e seus parceiros comerciais mais próximos virem a estreitar mais os laços comerciais com os EUA do que com a Europa continental, ou de aquele poder agir mais autonomamente em relação à China e à Índia, no que respeita à celebração de tratados comerciais e financeiros. A táctica mais consagrada e sábia sempre foi a de o poder vigente manter os recalcitrantes próximos de si e debaixo da sua alçada, para poder controlá-los melhor, mas o que a UE está a fazer, ostentando poses de quase expulsão punitiva, é exactamente o contrário: é empurrar o Reino Unido para a opção que esta já teve de assumir em face da hostilidade manifesta que lhe têm votado, ou seja, o hard Brexit, que pelo menos o deixará de mãos livres para perseguir autonomamente os seus interesses, por mais antagónicos que sejam com os da UE. E ou muito me engano ou não passará muito tempo até que se torne evidente que tal opção acabará por ser uma bênção para o Reino Unido, tendo feito da sua deserção um caso de sucesso, com o impacto indesejável que tal facto poderá vir a ter noutros países da União já não muito felizes com a sua integração (ou, pelo menos, com o grau de integração já existente). Se assim for, a UE arrisca-se a que o feitiço se vire contra o feiticeiro, incentivando nas opiniões públicas de outros países-membros o desejo de sair, em vez de o desencorajarem. E quanto maiores as retaliações agora, maior parecerá depois o eventual sucesso britânico.

A ver vamos, como se costuma dizer. Entretanto, espera-se do governo português, até pela ancestral aliança que temos mantido com a Inglaterra, e que já tão útil nos foi por diversas vezes, que contribua para moderar os ânimos e contrariar o espírito retaliatório que ameaça vir a ensombrar as negociações do Brexit e o perfil político da Europa.

Quanto ao mais, futuramente se verá se é a UE que faz mais falta ao Reino Unido ou se é este que faz mais falta à União. Eu não aposto as fichas todas em nenhuma destas alternativas, mas acredito mais na segunda. E, se calhar, tal poderá suceder por motivos que hoje ainda mal suspeitamos. A História é fértil em pregar partidas dessas, contrariando as certezas e as probabilidades defendidas pelos arrogantes que só enxergam o dia imediato.

Entretanto, como não podia deixar de ser, não é estranha a toda esta crescente hostilidade ao Reino Unido a caça desenfreada aos lugares de influência que este ainda ocupa nas instituições europeias, às grandes sedes empresariais que ainda operam no seu território (mas que podem querer deslocalizar-se por causa do Brexit e que são alvo de cobiça) e a um naco substancial das transações financeiras intermediadas pela praça financeira de Londres. Há ainda a apetitosa questão da redistribuição dos assentos que vão ficar vagos no Parlamento Europeu e que terão de ser rateados pelos outros Estados membros. Na sequência deste cerrar de dentes contra o país “desertor”, ainda vamos provavelmente assistir a muitas brigas de bastidores, mesmo antes de o Reino Unido levantar de vez o acampamento, para ver quem fica com os despojos. Apesar disso, como convém ao lado público da política e da diplomacia, os discursos de união e consenso continuarão quase em uníssono.

Como já aconteceu por diversas vezes no passado, os europeus continentais estão de novo a menosprezar a determinação e a capacidade de resistência dos britânicos. Com o pragmatismo que os caracteriza, hão-de acabar por resolver os problemas que lhes criarem muito mais depressa e melhor do que a União Europeia tem conseguido resolver os seus. Terão, aliás, muito mais flexibilidade para isso, livres de muitos dos constrangimentos que embaraçam as restantes economias europeias. E têm vários outros trunfos para jogar, para além da possibilidade de adopção de práticas de “dumping” fiscal que lesariam as economias europeias da parte continental. Com a actual soberba proporcionada pela superioridade numérica e pela desproporção demográfica, a restante Europa a 27 não está a ponderar bem tudo o que tem a perder.

Em suma: seria mais proveitoso (e, sobretudo, menos perigoso) conceder um estatuto de excepcionalidade ao Reino Unido do que abrir esta tremenda brecha na coesão europeia. De qualquer modo, o descontentamento com o descontrolo migratório está a crescer a olhos vistos e vai confrontar a UE com novas crises graves. Mais cedo ou mais tarde, talvez mesmo antes de vir a perfilar-se no horizonte o risco iminente da saída de qualquer outro país membro, terão de ser adoptadas algumas restrições temporárias à livre circulação e residência de pessoas, para evitar males maiores. E quando tal acontecer, muitos se interrogarão tardiamente por que não se enveredou logo por essa opção no caso do Reino Unido, causadora de bem menos danos do que a saída deste. Para já, o que é previsível é que a retórica extremamente agressiva e os comportamentos retaliatórios vão tornar a União ainda mais odiosa, não só aos olhos da população das Ilhas Britânicas, como aos de todos os outros eurocépticos, quer se sintam ou não solidários com o descontentamento britânico.

Já que tal imagem pegou de estaca na retórica política em uso, pode agora dizer-se que é nas amargas circunstâncias de um divórcio litigioso que pode aferir-se melhor quão fiável era a afeição conjugal. Para começar, as instâncias europeias deveriam logo ter enveredado por um divórcio amigável, por mútuo consentimento e com equitativa partilha de interesses; mas pelas declarações já vindas a lume, há quem esteja obstinado em que sejam o ressentimento e a vingança a ditar os termos. Se as coisas tomarem esse rumo, o que vier a passar-se poderá ser muito educativo para o resto da Europa, mas talvez não do jeito que os líderes europeus agora imaginam.

A procissão ainda vai no adro, dizia eu. Mas ainda o andor mal começou a mover-se e, como sinal premonitório, já estamos a assistir ao regresso das rivalidades territoriais europeias. Isto dá que pensar. E o primeiro pensamento que se impõe é que ainda é tempo de arrepiar caminho. O Reino Unido deveria ser tratado com compreensão e afabilidade, até pelo muito que a Europa lhe deve. Mas é absurdo que aquele país esteja a exercer um direito legítimo, aliás previsto nos tratados, e se chegue ao ponto de lhe exigir uma espécie de reparação de guerra. A Europa enlouqueceu de novo?

sábado, 8 de abril de 2017

Sinal de intolerância

Quando alguém se atreve hoje a falar contra os excessos migratórios, logo outro alguém o acusa de racismo ou xenofobia. É como defender que se beba com moderação e ser imediatamente acusado de ser partidário da Lei Seca.

sábado, 25 de março de 2017

O que é o populismo, afinal? (3)

Em abstracto, podem distinguir-se três perspectivas básicas sobre a natureza do populismo. E se duas já bastariam para turvar um pouco as águas, imagine-se o resultado com mais.

Para uns, o populismo é uma ideologia que considera a sociedade dividida em dois campos antagónicos e inconciliáveis, o povo e a elite (ou, no plural, as elites), e que preconiza alguma espécie de reacção popular, seja ela uma insurreição ou uma revolta eleitoral, contra o “sistema vigente” (o famoso establishment) e aqueles que o controlam, isto é, contra a “casta dominante”, os ricos, os privilegiados, os poderes formais e os poderes fácticos instituídos, em suma, contra todos os que mandam ou se movimentam nos meandros do poder, supostamente apenas em proveito próprio ou em prol de um intrincado cartel de interesses.

A sua tónica geral seria a condenação multifacetada das elites, pela sua ganância ou egoísmo, pela sua corrupção ou incompetência, pela sua incapacidade ou negligência em promover o bem-estar geral. E daí derivaria a urgência de subverter ou reformar radicalmente o próprio sistema político e as orientações tradicionalmente seguidas nas políticas sectoriais pelos partidos predominantes, fazendo prevalecer a vontade popular e os interesses da “maioria silenciosa” (entendida aqui sem quaisquer conotações específicas, apenas como menção genérica ao vasto número de pessoas a quem apenas se pede o voto e que logo em seguida se ignora, por que não é para elas que se governa e se faz política).

Para outros, o populismo não corresponde a uma ideologia em concreto, mas a uma forma de fazer política, e é por isso que surgem populismos em todos os quadrantes (à esquerda, à direita e ao centro). O que mais a caracteriza é o aproveitamento meramente táctico dos descontentamentos existentes, com uma dose generosa de exaltação e oportunismo, extremando posições e radicalizando a linguagem, explorando as emoções e os sentimentos mais básicos das pessoas comuns, introduzindo uma conflitualidade artificial nas pequenas fricções sociais, criando cenários irreais ou fazendo promessas inviáveis, distorcendo os factos e o seu significado, geralmente com recurso a uma demagogia capciosa e a uma retórica simplista, tudo isto guarnecido com uma aparente ausência de visão estratégica e com um reduzido naipe de objectivos definidos, jogando na própria fluidez e relativa indefinição para poder concentrar em poucas questões controversas um escasso programa político, onde desaguem algumas das queixas e frustrações mais comuns entre a população.

Mas há uma espécie de “terceira via” das interpretações do populismo que é em parte uma combinação das duas anteriores e, noutra parte, um acrescento a ambas. Trata-se de admitir que o populismo é uma certa forma de fazer política que tem um núcleo duro de doutrina (ou, pelo menos, de ideologia) e que também acrescenta algo ao debate político, trazendo para a ribalta os interesses e as ideias das pessoas comuns (ou de uma boa parte delas) que são habitualmente menosprezados pelas elites, em geral mais vocacionadas para implantar a sua mundivisão do que para respeitar o senso comum e mais empenhadas em prosseguir os seus interesses e carreirismos do que em pugnar pelo interesse geral.

Nesta perspectiva das coisas, torna-se portanto quase natural enfatizar o princípio da soberania popular e dar voz a grupos que não se sentem adequadamente representados pelo poder político instituído ou pelos tradicionais partidos de oposição, acusados de abraçar, cada um a seu modo, causas e medidas “politicamente correctas” (ou seja, estereotipadas e de matriz ideológica) que não espelham o sentir ou as convicções de grande parte da população, nem as suas necessidades, nem as suas reais preferências.

Ora é preciso reconhecer que, se o populismo dá voz a grupos e tendências que não se sentem representados nos partidos e coligações que habitualmente alternam no poder político, então ele funciona como um correctivo democrático, ao promover a politização aberta de questões que tendem a ser ignoradas ou menosprezadas, mas que encontram eco em muitos votantes. No caso dos populismos de esquerda, costumam ser sobretudo as desigualdades económicas gritantes e a falta de protecção de direitos individuais. No caso dos populismos de direita, costumam ser sobretudo as consequências dos excessos migratórios e a preservação da identidade nacional. E no caso dos populismos de centro, pode ser alguma combinação de ambas estas tendências ou a mera afirmação das vozes moderadas ou híbridas que tendem a ser desdenhadas ou escarnecidas em sociedades crescentemente radicalizadas. Mas está sempre presente um certo denominador comum, que é a alegada incapacidade das elites instaladas para actuarem em sintonia com as necessidades, as preocupações, os anseios e as expectativas das pessoas comuns, assim esvaziando na prática o sentido do seu voto.

Esta terceira interpretação do populismo parece ser a que oferece mais substância.
Se o populismo não tivesse uma ideologia estruturada, por mais rudimentar que fosse, seria difícil distingui-la da mera demagogia. Mas tem.
Se o populismo não tivesse uma estratégia, mesmo que só implicitamente assumida, seria difícil distingui-lo do mero oportunismo político. Mas tem.
Se o populismo não tivesse factos e razões a alimentar fartamente a sua capacidade de persuadir e expandir-se, não alastraria como fogo na palha. Mas tem.

Por estes três motivos, o que de mais sensato as “elites” podem fazer, enquanto é tempo, é trazer para o centro do debate político, na sua inteira verdade e crueza, tudo o que está a contribuir para a proliferação do populismo, assumindo honestamente que não há fumo sem fogo e que são necessárias soluções urgentes para vários problemas que há muito andam a ser negligenciados. Mas, ao dizê-lo, refiro-me aos problemas tal como os sentem e vêem as pessoas comuns e não os defensores de todas as ortodoxias em voga, sejam elas quais forem.

É que nisto de populismos é preciso ter muito cuidado: sabe-se como começam e como proliferam, mas não se sabe como acabam. No hipotético saldo final, podem trazer correcções à democracia ou constituir uma ameaça a ela. Tudo depende de diversos factores difíceis de controlar. Mas a púdica e hipócrita atitude agora mais em uso, do género “credo, cruzes, t’arrenego”, não vai contribuir para a pacificação social nem para a sanidade do funcionamento do sistema político. As pressões demasiado tempo comprimidas acabam por rebentar. E os danos são imprevisíveis.

quarta-feira, 15 de março de 2017

A grande ameaça

Se o actual descontrolo migratório continuar, não será a Europa a integrar os imigrantes, serão os imigrantes a desintegrar a Europa.

terça-feira, 14 de março de 2017

Feminilidade e feminismo

Ser feminista não impede ser feminina. Pelo contrário, é parte essencial.
Para uma mulher, adoptar comportamentos, preferências ou padrões tipicamente masculinos pode ser uma questão de escolha, de gosto ou de temperamento, mas não é necessariamente uma afirmação de si nem uma emulação de género. Pode ser apenas mimetismo, o que bem vistas as coisas, é a opção menos feminista que há, logo a seguir à humilhação e à subserviência.
O verdadeiro feminismo não esconde as semelhanças, mas assume as diferenças.

sábado, 11 de março de 2017

O que é o populismo, afinal? (2)

1. Há não muito tempo atrás, num semanário de grande tiragem, um jornalista descrevia o actual exercício da função presidencial por Marcelo Rebelo de Sousa como um populismo moderado e ao centro, chique e à portuguesa, somando apoios à esquerda e à direita, e distinguindo-se dos populismos radicais por não pretender crispar ou dividir, mas “fazer pontes, sarar feridas e somar energias”.

Logo à primeira impressão, deparamos aqui com três pequenas surpresas: primeira, numa era de populismos radicais e em que se constata a tendência para ver no próprio radicalismo um dos ingredientes fundamentais do fenómeno, é‑nos apresentada a noção de um populismo moderado; segunda, este é descrito como irradiando do centro e estabelecendo pontes, ou seja, mais ou menos equidistante dos extremos do espectro político; e terceira, trata-se de um populismo “chique”, isto é, popular mas não popularucho, com o seu quê de bom tom e bom gosto, não desagradando portanto às próprias elites e primando por um certo garbo interventivo, enfim, um populismo com estilo.

Para nosso aparente alívio, ficamos assim a saber que populismo não é necessariamente sinónimo de extremismo, conflitualidade ou grosseria. Valha-nos isso. Não obstante, embora esta descrição de um estilo político peculiar seja bastante ilustrativa, talvez não deva muito ao rigor dos termos. Há nela uma certa confusão entre populismo e a busca deliberada da popularidade. Pode haver pontos de contacto ou de intersecção entre as duas coisas, mas é bastante forçado falar de populismo quando a popularidade é obtida sem ser a qualquer preço, ou seja, com critério, com escrúpulo e com princípios. E sobretudo se não pretende minimamente subverter o establishment, mas apenas inundá-lo com a sua influência e condicioná-lo na sua actuação, sem qualquer desrespeito de normas constitucionais.


2. Mais recentemente, surgiu também na nossa imprensa um artigo traduzido de um prestigiado jornal inglês, no qual se falava dos riscos dos populismos centristas, convocando à parada exemplos tão heterogéneos como Berlusconi e Matteo Renzi, Beppe Grilo ou até o ex-chanceler alemão Gerard Schroeder, antecessor de Angela Merkel. O critério de uma tal mistura é bastante discutível. Mas, desta perspectiva, salta aos olhos que o centro político pode estar bem mais povoado de populismos do que desprevenidamente supúnhamos, se os tomarmos apenas como um exercício incaracterístico, inconsequente ou heterodoxo do poder, ou como a disputa dele por métodos irreverentes e retórica iconoclasta, desafiando a classificação estereotipada de esquerda ou direita e não encaixando nos padrões de actuação a que nos habituaram os partidos tradicionais.

No entanto, se adoptarmos este conceito simplista, chocamos com algumas dificuldades. Quando o critério principal da governação ou das várias oposições assenta na adopção das orientações que melhor sirvam o propósito de preservar ou disputar parcelas de poder, sem qualquer visão estratégica que contemple o interesse geral ou o avanço real do país, esgotando-se portanto no mero propósito de contentar ou aliciar eleitores e clientelas, pouco importa até o estilo utilizado, porque nesse caso o populismo infecta a própria substância da acção política. A maior ou menor sofisticação do aparato ideológico torna-se então um pormenor secundário, embora não de somenos. O poder é arvorado como um fim em sim mesmo, ou como algo gerador de recompensas, não como um meio para atingir objectivos definidos que se traduzam em progresso social, económico ou cultural. Trata-se, portanto, de uma apropriação indevida do poder democrático, que desvirtua a sua função e finalidade. E o que prevalece, nesse caso, não é a avaliação do mérito e realismo do que se faz ou pretende fazer, mas reunir sem grandes embaraços éticos todos os ingredientes de acção e de retórica que possam agradar a uma grande quantidade de eleitores, nem que para tal seja indispensável trapaceá-los. É a isso que assistimos correntemente, é esse o pathos actual de muitas escaramuças partidárias.

Ora deste tipo de populismo mais básico está o panorama político repleto. E nem era necessário que alguém salientasse que ele não é de forma alguma isento de riscos, embora não sendo extremista. As populações dos países mal governados que o digam. Mas torna-se difícil destrinçá‑lo da mera demagogia, senão por um único aspecto: é que à demagogia se concede ainda o benefício da dúvida de poder ser utilizada em prol de alguma visão estratégica, enquanto tal possibilidade se nega ao populismo. E é precisamente aí que reside o erro.

Não encontrar estratégia nos populismos em voga é cegueira voluntária. E assim como é deficiência de análise não distinguir entre populismo e demagogia, é-o também a utilização indiscriminada do termo para designar todos os movimentos políticos que medram à margem do espectro tradicional da representação política.


3. A demagogia não precisa de estratégia para prosperar. Basta-lhe o oportunismo de actuação e a habilidade táctica. No limite, pode até contentar-se com a mera fruição pessoal e clientelar do poder. Nem sequer precisa de uma ideologia consistente, basta-lhe saber manipular as opiniões e os humores de uma parte do eleitorado.

Mas alguns dos populismos que hoje singram não se limitam a acicatar ou aproveitar “estados de alma”, descontentamentos, irreverências ou “ideias fracturantes”. Podem ser uma insurgência contra o “politicamente correcto” ou contra qualquer tradicional “arco da governabilidade”, mas não é só disso que se alimentam nem é só por isso que engrossam. Apoiam-se num sentimento popular cada vez mais difundido, criam e alargam novos espaços de opinião pública, revelam uma sofisticação doutrinária e estratégica crescentes. E estão longe de visar o poder apenas como um fim em si mesmo.

Digamos mais: ao contrário do que muitos pretendem, estão longe de ser apenas um exercício de baixa política ou uma onda de irracionalidade que ameaça alastrar até conquistar maiorias ou tornar-se incontornável em futuras coligações de poder. Ao invés de muitos governos em funções, alguns dos chamados populismos sabem bem para onde querem ir e percebem minimamente o que é preciso reformar; e o seu ideário, pelo menos ao nível das lideranças, já não mostra menos consistência do que as cartilhas ideológicas professadas por directórios partidários de vários quadrantes.


4. Goste-se ou não, os populismos representam uma reacção cada vez mais enérgica a muitos erros e abusos que têm sido cometidos, não só na política interna dos países europeus, como na política europeia em geral (e com outros contornos, também na norte-americana). Erros e abusos esses que não falta quem queira perpetuar, apesar dos resultados que estão à vista, numa clara demonstração de prepotência da ideologia sobre o realismo. Mas a reacção gerada não consiste apenas em vago descontentamento que alguém se encarrega de tentar manipular ou encabeçar. Tem muito mais densidade do que isso.

Não é portanto assisado falar displicentemente de populismos sempre que surgem opiniões, movimentos ou lideranças que não encaixam no catálogo tradicional das opções ideológicas e partidárias. Não obstante a sua diversidade e diferentes graus de sofisticação intelectual, os populismos em ascensão têm mais consistência e fundamento do que se pretende atribuir-lhes. E apesar da atenção que lhes dedica, a imprensa em geral trata-os com desdém e revela em relação a eles uma certa ausência de espírito crítico que se traduz precisamente num claro excesso de criticismo. Não há, em geral, a preocupação de distinguir o trigo do joio e de perceber o que realmente se passa. O populismo parece um mal em si mesmo. Mas não. O mal em si mesmo é que fortalece cada um dos populismos. Contudo, estranhamente, poucos ousam nomeá‑lo com todas as letras. Porquê? Porque apesar de todas as muitas irreverências do nosso tempo, continuam a existir alguns tabus. Mesmo para a imprensa.


5. Entretanto, como pano de fundo, alastra um crescente mal-estar no mundo ocidental, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos da América, que tem causas idênticas, mas que é alvo das explicações maís díspares, muitas delas apenas estereotipadas, especulativas, impressionistas ou erráticas. Há uma resistência obstinada em apontar o dedo às verdadeiras causas dos populismos, dado que elas chocam de frente com o “politicamente correcto” dos nossos dias, em várias versões e quadrantes. E é também por isso que os chamados “populismos” (incluindo os que o são, os que apenas parecem sê-lo e os que arbitrariamente vêm sendo designados como tal) crescem simultaneamente à esquerda, à direita e ao centro.

Pode haver diferentes interpretações sobre a raiz dos problemas actuais. Mas uma coisa é certa: os rótulos superficiais e apressados sempre serviram para mascarar o pouco entendimento das coisas, umas vezes por mera incapacidade de entendê-las, outras vezes por falta de vontade. Os tabus políticos em vigor colaboram em ambos os casos.

Eis a questão fundamental que deveria preocupar-nos: que mal-estar geral é esse, tão intenso e omnipresente, que gera populismos em ascensão vertiginosa em tantos países quase em simultâneo? Não, não é a alegada disfuncionalidade do euro. Nem a globalização em abstracto. Nem a irracionalidade de certas políticas financeiras e monetárias. Nem tão-pouco o facto de o projecto europeu marcar passo e se acentuarem as divergências regionais. Tudo isso já existia antes de proliferarem os populismos. O fenómeno crucial é outro. Mas seja ele qual for, não encontra expressão nem resposta adequada nos partidos tradicionais. É por isso que emergem os outros, obviamente.

Esta impressionante vaga de fundo surge em contracorrente com alguns dos valores, códigos, catecismos, rituais, ilusões e hipocrisias que foram adoptados durante décadas pelos partidos e ideologias do costume. A opinião pública está a mudar na sua composição, a ritmo acelerado, sem que as instituições e os média consigam acompanhar o passo. E o facto de os jornalistas e comentadores estarem maioritariamente a errar o alvo nas suas análises contribui enormemente para que as opiniões e simpatias das pessoas inconformadas fiquem acantonadas em movimentos políticos alternativos, emergindo das várias brechas do sistema politico. Mas não se limitam a ocupar os espaços vazios, comprimem os espaços dos outros, ganhando progressivamente terreno. E já não é possível despachá-los a todos, como simples lixo, para o caixote dos extremismos. Como pode ver-se, a “peste” está a alastrar depressa e bem. Mas será mesmo de uma “peste” que se trata?


6. Que espera a imprensa para levar realmente a sério este novo fenómeno, compreendendo-o nos seus fundamentos e na sua amplitude, em vez de tanto se empenhar em demonizá-lo nas suas múltiplas manifestações, atitude essa que não nos levará a lado nenhum, excepto a um impasse duradouro e a um cisma social? Detectar nos populismos apenas a ameaça de um qualquer retrocesso histórico é superficial e enganoso. Repito: eles trazem em si algo de novo e é preciso perceber o quê. De outro modo, quem alimentar o tabu estará apenas a contribuir para um diálogo de surdos. Ora não é para isso que a imprensa serve.  

Se quisermos começar a levantar a ponta do véu, teremos de começar a falar desapaixonadamente sobre as reais dimensões, as consequências cada vez mais devastadoras e os riscos potenciais de várias migrações descontroladas: de pessoas, de capitais, de empresas, de empregos, de receitas fiscais, de poderes decisórios… e de culturas que literalmente invadem bastiões alheios.

Sob variados aspectos, andamos há muito tempo a brincar com o fogo, e agora vai ser difícil apagá-lo. Mas virar‑lhe sobranceiramente as costas não ajuda nada. Pelo contrário, podemos todos acabar queimados. Acautelemo-nos, portanto. Os populismos vieram para ficar e é ainda imprevisível como vão evoluir. Mas não lhes faltam razões para existir e crescer, e não é boa política ignorá-las nem continuar a tentar encostá-las desdenhosamente às cordas. Essas razões têm de ser seriamente consideradas e rapidamente trazidas para o debate político dito “normal”, sem preconceitos nem tabus. E os problemas a que elas se referem têm de ser rapidamente enfrentados, antes que seja tarde demais para a paz social.

Em suma: os chamados “populismos” estão muito longe de ser meras manifestações de irracionalidade colectiva. A pior irracionalidade poderá consistir em nem sequer tentar perceber as razões que lhes assistem.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Um diagnóstico invertido

Frequentemente se lê e ouve que um dos problemas essenciais da Europa de hoje é o afastamento dos cidadãos em relação às instituições europeias. Errado. Esse diagnóstico está feito ao contrário: um dos problemas essenciais da Europa de hoje é o afastamento das instituições europeias em relação aos cidadãos.