sábado, 23 de outubro de 2021

Alterações Climáticas: OPTIMISMO, IDEOLOGIA e REALIDADE


Aos poucos vamos sabendo melhor como tudo na natureza está interligado. Utilizamos com frequência a palavra “ecologia” para exprimir a interdependência entre as espécies, entre estas e os seus habitats ou entre estes e outros fenómenos naturais que outrora pareciam nada ter a ver com eles. Vamos paulatinamente percebendo como, em qualquer sistema, muitos fatores podem ser afetados por um só, e vice-versa. Em suma: que quase tudo depende de quase tudo, direta ou indiretamente, e que uma única ocorrência desregulada pode afetar todo um conjunto de circunstâncias ou de equilíbrios.

Quando circunscrevemos esta compreensão sistémica a uma dada fauna ou região, chamamos-lhe “ecossistema”. E nas últimas décadas, os cientistas têm estudado separadamente muitos ecossistemas nos mais variados lugares do mundo. O que ainda não percebemos bem, segundo parece, é que o nosso próprio planeta é, todo ele, um vasto ecossistema. Quando danificamos uma das suas partes, afetamos as restantes. Um dia, a extensão dos danos pode ser tal que consertá-los esteja já fora do nosso alcance. O grande e verdadeiro enigma do nosso tempo é se esse dia já chegou.

Será bom termos sempre presente que, nos últimos 50 anos de angústias climáticas e de debates acalorados em torno do assunto, os otimistas quase nunca tiveram razão. Será de esperar que a tenham desta vez? No passado, fomos lentos a perceber a velocidade das mudanças climáticas; agora, e em sentido inverso, estamos a ser lentos a perceber a velocidade com que precisamos descobrir a tecnologia necessária para combatê-las. Muito sofrimento e enorme destruição irão acontecer por causa disso.

Coloquemos uma questão pessoal: já alguma vez pensou que possamos ter chegado, ou que estejamos prestes a chegar, a um ponto de não retorno? Que, transposto um certo limiar de interferências artificiais no ecossistema terrestre, possamos desencadear uma desordem climática e biológica de tal magnitude que pouco mais possamos fazer depois senão assistir, desnorteados e quase impotentes, às suas consequências devastadoras? Pode já ser esse o caso, ou não. Não sabemos realmente. Mas se continuarmos a contar otimisticamente com hipotética tecnologia futura para encontrar uma saída para o desastre ambiental que nos espera ao virar da esquina, não sobram dúvidas de que seremos apanhados desprevenidos e com as calças na mão. Será melhor acelerarmos bastante o passo, e quanto antes… O otimismo, neste caso, joga contra nós.

Outro fenómeno que não tem ajudado muito no combate às alterações climáticas é o facto de este assunto ter sido contaminado pela segmentação ideológica que tomou conta da política contemporânea.

Algumas correntes políticas, sobretudo as que são vulgarmente apelidadas de “esquerda”, apropriaram-se destas temáticas como se as questões do clima e do ambiente fossem causas especificamente suas. Isto aconteceu durante demasiado tempo, perante a relativa passividade das outras forças políticas. Quando estas finalmente despertaram para o impacto de tais assuntos na opinião pública, algumas fizeram-no da pior forma: em vez de reivindicarem as preocupações climáticas e ambientais como uma causa comum e transversal a toda a divisão partidária, ou até mesmo pairando acima dela, resolveram adotar uma atitude hostil e tornaram-se negacionistas, sobretudo entre a chamada “direita radical”.

Em que consiste o negacionismo? Ele manifesta-se sob duas formas: uma delas nega pura e simplesmente que esteja a ocorrer  um aquecimento global do planeta, vendo nessa ideia uma mera conspiração alimentada por interesses obscuros e iníquos; a outra, embora admitindo que esse aquecimento global possa estar a acontecer, nega que ele resulte da ação humana e das suas interferências nos ciclos da natureza e nos equilíbrios ecológicos (ou seja, defende a tese de que as alterações climáticas resultam de causas puramente naturais e nada têm a ver com as atividades humanas).

Quem pode ter razão nestas querelas?

É bem possível, e até provável, que haja também causas puramente naturais a influenciar as mudanças do clima, embora ainda não esteja muito claro quais elas sejam. Afinal de contas, o clima na Terra não foi sempre estável antes do aparecimento da espécie humana. Houve alterações amplas na temperatura média do planeta, houve subidas e descidas do nível dos mares, houve mudanças dramáticas na meteorologia e na biosfera dos continentes. Ninguém pode seriamente acreditar que toda essa mutabilidade global tivesse a certa altura desembocado numa tendência fixa para a estabilidade climática, apenas perturbável pela ação humana recente. Mas por outro lado, tendo em consideração toda a evidência entretanto acumulada, é inegável que o impacto humano na Terra está a contribuir decisivamente para a intensidade e o ritmo das alterações climáticas atuais. Têm sido de tal ordem as transformações impostas ao planeta que elas têm afetado praticamente todos os ecossistemas e todos os ciclos naturais. Como poderia não haver graves repercussões nos diversos climas?

Esta não é uma questão ideológica, é uma questão factual. Não são teorias, são factos incontestáveis que revelam a grandeza e as repercussões das alterações em curso. As possíveis consequências delas é que poderão desafiar a imaginação. Mas não precisamos imaginar muito. Os fenómenos meteorológicos extremos que têm ocorrido ultimamente não só tornaram inegável a mudança climática como nos deram um prenúncio de como as coisas podem piorar: devastações numa escala sem precedentes provocadas por tufões, dilúvios, vagas de calor insuportáveis, cheias, incêndios arrasadores, por vezes com proporções capazes de lançar no caos países ou regiões inteiras. E numa fase posterior, mas não muito distante no tempo, capazes de destruir as nossas civilizações atuais, tal como as conhecemos.

Exagero? Não. No que toca às alterações climáticas, tudo está a ficar pior e mais depressa do que os cientistas antes previram. Como corolário lógico, as consequências dessas alterações também podem ser bem piores do que o previsto.

Travamos uma corrida contra o tempo, mas muitos dirigentes políticos não se aperceberam ainda da gravidade da situação. Continuam a pensar na mudança climática como um fenómeno gradual e anunciam sem pressas energias menos poluentes ou vagas reduções nas emissões de gases com efeito de estufa. Nenhuma dessas promessas será suficiente, ainda que todas fossem cumpridas (e muitas delas não o têm sido). Já não bastarão meras reduções nas emissões poluentes. Dado o ponto a que chegámos, só poderíamos começar a inverter o processo com novas e eficientes tecnologias de captura de carbono e soluções de geoengenharia tecnologias e soluções que ainda não possuímos.

Não basta reduzirmos as emissões de gases com efeito de estufa. Mesmo reduzidas, todas essas emissões vão acrescentar-se às que já permanecem na atmosfera, ou seja, vão agravar a situação atual. Vão ter um efeito cumulativo. E às novas emissões que fizermos vão também adicionar-se todas as emissões provocadas indiretamente pelas nossas interferências nos ciclos naturais e nos ecossistemas. Um ciclo vicioso de causas e efeitos já está em marcha e, por causa dele, tudo está a acontecer pior e mais depressa do que foi antes previsto pelos peritos mais pessimistas. Só há duas conclusões lógicas a tirar: 1ª) não temos até 2050 para atingir a neutralidade carbónica, sem antes sofrermos consequências devastadoras; 2ª) necessitamos criar e pôr em prática muito rapidamente tecnologias de captura de carbono, assim como tirar partido dos processos naturais que possam contribuir para o mesmo objetivo.

Se não encararmos a sério estes dois problemas, o nosso futuro vai tornar-se bastante sombrio – e talvez muito mais rapidamente do que pensávamos.

Como afirma o último relatório das Nações Unidas sobre este tema, “muitas das mudanças observadas no clima não têm precedentes em milhares, senão em centenas de milhares de anos, e algumas das mudanças já em marcha — como a subida continuada do nível do mar — são irreversíveis ao longo das próximas centenas ou milhares de anos.” Ainda assim, o mesmo relatório deixa uma mensagem pela positiva: “Contudo, reduções fortes e sustentadas das emissões de dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa limitariam as alterações climáticas. Enquanto os benefícios para a qualidade do ar seriam rápidos, poderia demorar uns 20 a 30 anos para que as temperaturas globais estabilizassem.”  Será, de facto, assim?

Parece haver nesta aparente manifestação de otimismo uma certa preocupação de fugir ao alarmismo climático, talvez precisamente o contrário do que seria necessário nesta fase dos acontecimentos. A verdade incontornável é que todos os cenários mais pessimistas daquele e de outros organismos semelhantes foram largamente ultrapassados pela realidade. Isso revela que tem havido repetidamente erros metodológicos nas previsões realizadas ou que há causas atuantes no aquecimento global que não têm sido corretamente avaliadas. Talvez desconheçamos ainda algumas delas ou a teia intrincada das interações entre elas. Ou talvez se subestime o carácter exponencial dos fenómenos subjacentes às alterações climáticas. Por vezes há até conclusões nos relatórios que parecem apenas traduzir a busca de um meio-termo aceitável entre os diversos cenários propostos pelos especialistas, uma espécie de consenso razoável que não ponha em causa a sua credibilidade científica. Mas é impossível não notar algumas incongruências.

Depositar demasiadas esperanças numa forte redução das emissões poluentes é como apostar tudo num cavalo coxo. As emissões não têm parado de crescer ano após ano, mas ainda que conseguíssemos doravante reduzi-las, as novas emissões vão sempre adicionar-se às já existentes. Portanto, uma redução (mesmo que drástica) das novas emissões não significa uma redução da quantidade total de gases com efeito de estufa existentes na atmosfera. Nunca será demais insistir nisto, nem deverá quaisquer haver enganos ou ilusões quanto a isto. Tudo dependerá, afinal, do saldo positivo ou negativo que consigamos estabelecer entre o acréscimo do total acumulado de emissões e a captura de carbono que ocorra por processos naturais e artificiais. Teremos doravante uma espécie de conta-corrente com a natureza, mas precisaremos também de colaborar com ela. Porque no fim de contas, para evitar os desastres previsíveis, nós e a natureza precisaremos em conjunto de capturar mais carbono do que aquele que é libertado sob as mais diversas formas. Pela nossa parte, precisaremos não só de facilitar os processos naturais dessa captura de carbono como também de acrescentar outros criados pela nossa própria tecnologia, e ambas as coisas com a maior urgência possível. Na verdade, deixou de ser racional evitar o alarmismo, porque estamos a ficar sem tempo para evitar o pior.

Foi em 2018 que um organismo especializado das Nações Unidas publicou um relatório especial em que estimou que o planeta se encontrava então 1ºC acima dos níveis pré-industriais. Agora, três anos depois, afirma que já se encontra 1,1ºC acima desses níveis. Basta fazer as contas: se este ritmo de aquecimento se mantivesse, atingiríamos os 2ºC ainda antes de 2050, o que já de si seria assustador, pois representa ainda mais do que o mesmo organismo previra apenas há meia dúzia de anos para o final do século! Houve, portanto, uma aceleração. Mas o problema adicional é que o ritmo do aquecimento continua a acelerar, o que significa que todas as projeções feitas com base no ritmo atual cairão rapidamente por terra. Elas estão perigosamente subestimadas, por não tomarem em devida conta essa aceleração crescente.

O que implica isto para o mundo em que vivemos? Haverá certamente “cada vez mais ondas de calor, estações quentes mais longas e estações frias mais curtas”. Mas se o aquecimento global chegar aos 2ºC, as ondas de calor extremas atingirão mais frequentemente os limites críticos de tolerância para a agricultura e a saúde, diz também o último relatório das Nações Unidas. Isso significa que várias zonas do planeta, espalhadas pelos diversos continentes e sem poupar nenhum, poderão chegar rapidamente a temperaturas em que a vida humana se torna impossível, gerando milhões de refugiados climáticos, muitos deles empobrecidos e desesperados.

No que concerne à subida das águas do mar, é possível que os especialistas do clima venham a ser novamente surpreendidos. Se o ritmo do aquecimento global estiver a ser subestimado, por não estar a ser devidamente contabilizada a sua crescente aceleração, isso significa que as previsões feitas para 2050 ou para o final do século podem ser atingidas muito antes. E tudo aponta para que o venham a ser, porque a situação global continua a deteriorar-se a olhos vistos. Há várias razões para isso. Eis algumas.

Ao longo das últimas décadas, as florestas e os oceanos, juntamente com os solos, têm conseguido captar mais de metade das emissões de dióxido de carbono produzidas pelas atividades humanas, usando-o em processos naturais (como a fotossíntese, por exemplo, função pela qual as plantas, as algas e algumas bactérias, em presença da luz solar, transformam dióxido de carbono e água em matéria orgânica, libertando oxigénio). Florestas e oceanos atuam, portanto, como “sorvedouros de carbono”, mas a sua capacidade de absorção tem limites e, pior do que isso, tudo indica que vão tornar-se cada vez menos eficientes ao longo das próximas décadas, além de que o aumento das emissões não será acompanhado por um aumento destes “sorvedouros”. Antes pelo contrário. As florestas estão a diminuir a um ritmo galopante, devido ao desmatamento agressivo e aos grandes incêndios florestais, abrangendo áreas cada vez mais extensas. Em muitas regiões do planeta, o abate acelerado de árvores e as queimadas intencionais têm dado lugar a campos agrícolas e a pastos para a pecuária intensiva. Como agravante, os incêndios e as queimadas libertam grandes quantidades de carbono para a atmosfera, o que atua em contracorrente com os esforços de redução das emissões industriais. Nos oceanos, assiste-se a uma rarefação do fitoplâncton, um conjunto variado de micro-organismos capazes de fotossíntese que vivem flutuando na superfície das águas (tais como algas e cianobactérias) e que não só garantem a oxigenação da água como constituem a base da cadeia alimentar aquática. Essa rarefação está também a ocorrer em muitos dos grandes rios e lagos, para além do facto de alguns deles estarem a encolher de tamanho. E a contribuição dos solos também poderá estar afetada, não apenas devido à erosão e à decomposição aceleradas, mas também devido à ação dos pesticidas e às práticas de agricultura intensiva.

O aquecimento dos oceanos é, só por si, um problema, já que o dióxido de carbono da atmosfera se dissolve mais facilmente em água fria do que em água quente. Portanto, o aquecimento das águas dificulta o processo. Também as águas superficiais transportadas dos trópicos, agora mais quentes, para as altas latitudes (incluindo as regiões polares) podem acelerar a fusão dos gelos, levando à redução da salinidade das águas superficiais e assim aumentando a estratificação entre estas e as águas das camadas inferiores, o que por sua vez reduz o movimento descendente de dióxido de carbono para o oceano profundo. Uma vez que são as diferenças de temperatura e de salinidade das águas que determinam em certa medida o trajeto das correntes oceânicas, as variações significativas de qualquer destes parâmetros podem alterar as próprias correntes e irão certamente fazê-lo. Ora a circulação oceânica desempenha um papel fundamental na regulação do clima global, já que as suas correntes são grandemente responsáveis pela transferência e redistribuição do calor, evitando que o planeta se torne mais inóspito. Portanto, a alteração dessas correntes pode desencadear mudanças drásticas no grau de habitabilidade de muitas regiões do mundo.

Mas é difícil falar dos oceanos sem referir uma das maiores tragédias que neles está a ocorrer: a acumulação de centenas de milhões de toneladas de plásticos, algo com que, segundo alguns estudos, estamos a provocar danos tais nos ambientes marinhos que talvez já tenhamos ultrapassado um ponto de não retorno. Não se trata apenas da poluição causada pelos próprios plásticos, cuja degradação leva dezenas ou centenas de anos e que em grande parte os vai progressivamente transformando em detritos mais pequenos, que os investigadores chamam genericamente “microplásticos” e que, confundindo-se ou misturando-se com o alimento de várias espécies, acabam por penetrar em muitas cadeias alimentares, incluindo a nossa. Antes de tal acontecer, estes plásticos vão absorvendo químicos que flutuam livremente no oceano, tornando-os potencialmente tóxicos. Quando são ingeridos, tornam-se duplamente nocivos e perigosos: pelos efeitos da própria ingestão do plástico, muitas vezes letal ou causadora de lesões, e pela acumulação de produtos contaminantes nas vísceras e músculos dos animais, o que faz com que se concentrem ao longo da cadeia alimentar. Uma boa parte deles, sem darmos conta, vai acabar no nosso prato.

Esta acumulação de plásticos nos rios e nos oceanos tomou tal dimensão em algumas partes do mundo que precisamos ver para crer: há rios asiáticos de tal modo cheios de detritos que já não se consegue ver a água, a ponto de quase não nos apercebermos que se trata de um rio, e nos mares formaram-se ilhas aparentes com dimensão maior que alguns países. A maior delas é a famosa Ilha de Plástico que se formou no Oceano Pacífico, entre o Havai e a Califórnia, que já tem cerca de 1,6 milhões de Km2 (uma área total quase três vezes maior que a da França ou 18 vezes a de Portugal!) e que continua a crescer.

Esta forma de poluição das águas está a afetar a sobrevivência de muitas espécies, algumas já à beira da extinção. E não sabemos ainda bem quais os seus potenciais efeitos em todos os ecossistemas marinhos, embora se adivinhe que seja uma bomba-relógio. Mas do que se fala menos é do seu potencial impacto nas alterações climáticas, porque ainda pouco se estudou a influência dos plásticos no aquecimento das águas fluviais e oceânicas. A analogia pode parecer um pouco simplista, mas é plástico que usamos para criar estufas em terra, por ele provocar retenção de calor. Havendo, como há, áreas descomunais de oceano que já têm a sua superfície completamente recoberta de detritos plásticos de todo o género, não prejudicará isso os processos térmicos aquáticos e a redistribuição do calor, não será dramaticamente afetada a fotossíntese e não estará assim posta em causa a sobrevivência do fitoplâncton nessas vastas áreas, bem como de toda a cadeia alimentar que depende dele? Eis perguntas ainda sem resposta esclarecedora. Mas ninguém se surpreenderá se vier a descobrir-se que a poluição das águas pelos plásticos está a contribuir significativamente para o aquecimento dos oceanos.

Uma das consequências desse aquecimento é o seu efeito pernicioso ou destrutivo sobre os recifes de coral em todo o mundo. Muitos corais estão a morrer em diversas latitudes, a um ritmo acelerado. Compreendemos facilmente a importância disso se pensarmos que uma em cada quatro espécies marinhas vive nos recifes de corais, incluindo cerca de 2/3 das espécies de peixe, que neles encontram abrigo, alimento e locais protegidos para a reprodução. Um dos sintomas mais óbvios do definhamento dos corais é o seu progressivo branqueamento, que traduz uma perda de interação biológica com as algas que com eles vivem em associação e que está também relacionado com o aumento de doenças nos próprios corais.

Complicando ainda mais a situação, está a ocorrer um fenómeno de acidificação dos oceanos. Isto acontece devido à grande quantidade de CO2 atmosférico, que em parte se dissolve na água, formando ácido carbónico, um composto muito instável que ao dissociar-se torna a água mais ácida. A acidificação tem um impacto negativo direto nas estruturas dos corais, cujos esqueletos são de natureza calcária, tornando-as mais frágeis e sujeitas a serem diluídas. Escusado será dizer que o definhamento e a morte dos corais, pelos seus impactos nos respetivos ecossistemas, poderão ter como resultado a diminuição drástica da quantidade de peixe nas zonas afetadas, com consequências dramáticas nas cadeias alimentares e nas pescas. Se as tempestades, as secas e a desertificação representam um risco crescente para a produção agrícola, a obtenção de alimento no mar também poderá vir a conhecer piores dias do que a crescente escassez que já hoje se faz sentir.

Escassez é sinónimo de carestia ou fome. Para as populações que extraem a sua alimentação e o seu rendimento básico diretamente da terra ou do mar, o futuro é incerto. Algumas poderão tirar partido da escassez e da carestia, outras poderão ser suas vítimas. De entre estas, algumas poderão conhecer surtos de fome e subnutrição. Mas para o grosso dos indivíduos e das famílias em quase todas as sociedades, a menor abundância na produção ou as perturbações na distribuição de bens alimentares representarão um acréscimo de custos e uma certa perda de nível de vida. Em diversas sociedades, isso poderá representar um recuo social de décadas. Contudo, perante o panorama geral resultante das alterações climáticas, esse pode bem vir a ser o menor dos males.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Climate change: THE TRIUMPH OF IGNORANCE

For those with an interest on politics and its backstage, the partisan’s life provides a considerable quantity of criticism, analyses, commentaries and defamations; however, the sheer amount of attention given to today’s intricate scenarios, as well as its characters, prevents us from seeing one of our most significant realities: the imminence of enormous and consecutive catastrophes posed by progressive climate change.

A large majority of the population considered cultured or instructed has but a pale idea of the realities we are about to face, should we not take preemptive measures in time. And among those living in underdeveloped countries and with little to no schooling, unarguably still a majority in every continent, the unawareness as to every global problem is such that they are unable to view that it will be them, with high probability, those who will most quickly and considerably suffer the consequences that lie ahead, either as a result of poverty or negligence.

As for the most developed countries, including ours, the environmental and climate matters have been widely talked about, occasionally being reduced to a mere political or intellectual fashion, or even an agenda for the media; and yet, in spite of its popularity, the subject has been largely underestimated.

There is a vague notion that climate change will mostly impact remote areas, at least in the short term, and that the more developed regions will find the necessary means to gradually adapt to its effects.  Perhaps they will be found, but there is no guarantee. Regardless, immense changes in their territories and economies are inevitable, with this being a phenomenon which greatly transcends the sphere of common politics and its more transient effects.

It’s not simply about tackling air pollution and the accumulation of garbage in all oceans, or delaying the rhythm of sea level rise, or moderating the mass extinction of species occurring nowadays.

What is truly happening is something far larger in scale – and worse. There is no appropriate frame to represent the huge threats to which we are exposed and its biological and civilizational consequences. Even the term “catastrophe” may prove insufficient to express this danger, should we conceive the status of deprivation and widespread chaos which may come as a result of climate-related devastation. We may be used to deal with catastrophes of various kinds, but nothing has yet prepared us for what is to come: sudden and significant transformations in our environment, which we shall not be ready to face, even considering the scientific and technological advancements at our disposal.

One of the current misconceptions in public opinion and in the planning of many leaders is the belief that climate change is a slow and gradual shift; unfortunately, this is not so.

Climate change started out as a slow process when its causes were still fairly moderate. But these causes have expanded quite a lot and several others have joined them in the meantime, so that their effects are progressively growing and acquiring an increasing pace. In other words, catastrophes of several kinds (droughts, wildfires, storms, floods, plagues, epidemics) occur with increasing intensity, as well as gradually briefer gaps in between.

This increasing intensity and frequency are just two of the aspects that are implicit in the concept of “exponential growth”, a mathematical notion which many are using nowadays (including journalists) without knowing exactly what it means. An exponential phenomenon is not just a phenomenon whose effects are increasing and accumulating, it’s above all a phenomenon whose effects are multiplying. In other words: it’s constantly accelerating, as is currently the case with global warming and rising sea levels.

It is essential to understand this point: when a phenomenon becomes exponential, it’s no longer slow and it’s no longer gradual. It does not occur at a constant rate, but at a progressively increasing one. In what comes to phenomena that give rise to natural disasters, these will be ever more extensive, frequent and destructive, quickly seeming to exceed the limits of all human predictability and of our collective capacity to halt them. And everything becomes even worse when the effects of a phenomenon add to its causes, creating a vicious circle, thus increasing its dangers and complexity. And this is exactly the situation in which we are now: we are plunged in a spiral of climatic events whose outcome is uncertain, but certainly tragic. What awaits us henceforth is perhaps more than a mere succession of catastrophes, it may turn out to be (at least due to the accumulation of its consequences) a true global cataclysm, given that we will witness a drastic modification of a large part of Earth's surface, of its natural habitats and their living conditions, and also of the livelihoods of their respective populations. And we don't know how quickly that may happen, nor at what pace we'll be able to adapt.

But, some may say, with all the scientific tools we have at our disposal, isn’t our forecasting capacity able to draw fairly realistic scenarios for the future? No, it isn't, far from it.

No need to look much for blunt evidence. When, in 1997, politicians and scientists from all over the world elaborated and signed the historic Kyoto Protocol, aiming to fight global warming, they were based on measurable phenomena and trends, that is, on analyzes compatible with the data and instruments existing at that time. There were some optimistic forecasts and others of a more pessimistic nature, but the agreements were made assuming an average scenario, discarding the most extreme anticipations on both sides of the range of hypotheses. However, twenty years later, it was inevitable to come to the conclusion that the most pessimistic forecasts were resoundingly surpassed by the facts – and by a wide margin. In other words: not even the most alarmist specialists were able to anticipate what actually happened. And this is dangerous, far too dangerous. It reveals, first of all, that our cutting-edge knowledge was not (and probably still is not) up to assessing the full dimension of the climate trouble we are in. The livelihood or even the survival of a large part of human population could be at risk in the future – and we are not even fully aware of this yet, nor of the serious conflicts that may arise as a result of the possible scarcity of resources.

“Eeeh, enough with the alarmism”, some will say. “We will certainly continue to do whatever is necessary to avoid the worst scenarios. Let’s not lay down our arms and everything will be solved, better or worse, whatever the means needed”… Indeed, this optimistic voluntarism may be a desirable state of mind; yet, when it comes to facing the threats, and from a scale perspective, maybe it's not much more than that. In fact, when considering what’s necessary, it’s little more than nothing. We’re running the risk of turning our planet largely uninhabitable in just a few decades, and no positive thinking will be able to prevent it. We will need much more than that.

Tragically, we have allowed things get to a point where prudence and goodwill are no longer enough. Instead, what is needed now is to sound all alarms, even though still remains, in academic contexts, a certain aversion to “climate alarmism” as a condition of scientific credibility. But as an old proverb says, it’s before the house being robbed that we must lock the door; and I fear, in this case, not even that shall suffice anymore. In order to tackle the potential threats and their terrible repercussions, we’ll need more than political commitment and large financial means; we’ll need several and substantial scientific advances, along with a large amount of technology that is not yet available or even conceived.

The erroneous notions that were spread about the pace of climate change and its effects, supposedly at the rate of a given value per year or per decade, have given us an artificial and misleading tranquility about the time we have left to fix things and how urgently we need to do it. Perhaps everything would have gone differently if scientists and the media had tried more persistently to make us understand what, deep inside, we all know: natural phenomena don’t always occur gradually and are sometimes subject to major discontinuities, sudden alterations in rhythm or intensity and interferences that can attenuate or aggravate what we believe to be predictable. Yes, we know it: what starts as something gradual (or apparently so) may come to cause huge and sudden changes, some of them foreseeable, some quite unexpected. But when we consider them remote or hypothetical, we generally prefer not to worry too much. This is an old self-protective tendency of our brains: not to create unnecessary stress. However, in this particular case, the shot can backfire on us.

We all have seen images of ice floes crashing down in icebergs and glaciers or avalanches sliding on snow-capped mountains. Before such a phenomenon could happen, there might have been a slow erosion process, yet the outcome is quick. In the case of ice, after the crash it will likely melt in a relatively short time, which we may consider insignificant when compared with the time needed for its erosion. There are reports of gigantic icebergs that completely melted in a few days or weeks. In fact, there is no way around the laws of physics: under natural conditions, when surrounding temperature reaches or approaches zero degrees, ice begins to melt; and the bigger the surface being exposed to higher temperatures, the more rapidly it will melt; and the less compact or the more cracked ice is as a result of earlier erosions, the easier it breaks and the faster it melts; and the more intense the heat wave, the less time ice shall resist.

This means that, if occur abnormal temperature rises in atmosphere or in oceans’ currents, large ice masses may melt in a short time lapse, at a far more significant pace than we have known within the last quarter of century. Since 1992 to the present day, Antarctica and Greenland, which have the two largest ice mantels on the planet, have already lost above seven trillion tons of ice and this loss has resulted in a global sea level rise surpassing two centimeters. However, such a seemingly small change gives us but a modest notion of what that may imply in terms of erosion and coastal floods, and by no means provides a safe yardstick for assessing what may happen in the present decade and the following ones, because the melting of the great ice masses is now in constant acceleration and obvious expansion. NASA satellites have detected in 2012 that the surface on which the melting of Greenland’s icy sheet was evident had surpassed the usual 40% during summer months to a staggering 97% in just a few days, due to a heat wave in the atmosphere. Scientists were forced to conclude that the repetition of such phenomena could eventually lead to a quick and utter meltdown. This is cause for alarm: if the entire Greenland ice mantle, which covers approximately 80% of its territory, melted completely, that would raise sea levels by more than seven meters. But not going so far, if only one-seventh of that huge icy mass were to melt, then the sea level rise would correspond to around a meter, enough to flood most of the world's coastal cities and to cause the loss of large portions of shoreside territories in every continent, as well as the disappearance of countless islands. To think that this may only occur gradually in the range of many decades is a naïve and dangerous assumption, and so is considering the partial melting of Greenland as an isolated phenomenon, forgetting the contribution of simultaneous melting in other frozen masses on the planet.

Some climate studies suggest that the Arctic may run out of ice up until 2035, as a result of rising temperatures in the region. One of the most feared consequences is the melting of the so-called “permafrost”, a vast expanse of soil which remains frozen through the entire year and covers 25% of the land surface in Northern Hemisphere, mostly in Canada, Greenland and Russia, but also in Norway and Alaska. This frozen surface contains carbon dioxide, methane and toxic mercury, while also being a reservoir of viruses and bacteria with which recent humanity has never had any contact and against which it most likely has no immunity.

The “permafrost” is composed by a mixture of permanently frozen land, ice and rocks, constituting a layer that is covered by another layer of ice and snow which can reach a depth of 200 meters in some places during winter, but melts afterwards progressively with the rising temperatures and becomes reduced to a thickness of mere 0.5 to 2 meters upon melting (therefore turning the soil’s surface swampy, since the waters at the surface are not absorbed by the frozen soil, a fact that diminishes its capacity for solar reflection). This frozen soil is rich in organic substances which slowly decompose; but when ”permafrost” melts, bacteria and fungi are able to decompose the carbon contained in that organic matter far more quickly, releasing it into the atmosphere as carbon dioxide or methane, both gases responsible for the greenhouse effect. And experts describe a vicious cycle: the gases released from the “permafrost” accelerate global warming, which in turn hastens the melting of the “permafrost”. In day-to-day language, it’s a “snowball effect”.

According to another recent study, the “permafrost” in the Northern Hemisphere alone contains more than twice the amount of carbon already existing in the atmosphere, and a fast thaw may contribute immensely to global climate change. The amount of carbon dioxide and methane which it may send to the atmosphere depends on the rhythm of its melting, but there is large evidence that successive abnormally warm summers are speeding up the melting process considerably and drastically thinning out the upper layers of enormous subterraneous ice blocks, which have been frozen solid for millennia. In vast swaths of icy territory, it may take some time until defrost temperature has been reached; but, once reached, defrost itself will be a quick process – and one could even say abrupt, because it does not fit in our notion of something progressive or gradual.

Let’s imagine a sea ice block with an initial temperature of -25ºC. If the surrounding temperature rises or oscillates, for a long time nothing seems to happen until the melting point is reached, which in the case of sea ice is roughly -2ºC (a little lower than for “pure” ice, due to the quantity of dissolved salts, which render it even more vulnerable). But when the melting point is reached, regardless of how much time may have passed or how many thermal fluctuations may have occurred, the ice actually thaws and the higher the surrounding temperature is, the more quickly ice will melt. In fact, we know from experience and from laws of physics that other changes in the state of matter also work in a more or less abrupt way: when we leave a kettle of water to boil, we need to wait for some time until the temperature has risen enough; and the heating may seem to us slow and gradual, yet as soon as it reaches 100ºC the water immediately starts to boil and evaporate; and no matter what we do, we are unable to bring the steam back into the kettle... This may be simple to understand, but under natural conditions things are a little more complex and therefore less predictable.

The fact that “permafrost” is composed of different materials, with different freezing points and different cohesion degrees, may turn it more vulnerable to breakdown and cracking than large homogeneous ice masses, greatly increasing the extent of its exposure and thus the potential of erosion, with this, in turn, causing the melting process to be much faster than initially expected. In general, the more rugged the relief is and the more rifts it contains, the more vulnerable to defrosting it will be – and that evolution is taking place at an alarming rate, in a large area of the Arctic region. Paradoxically, instead of worrying about this and other related phenomena, many political leaders in the region are just attempting to discover how to take advantage of the Artic melting to benefit commercial shipping and the creation of new ports, without understanding the extent of the threat or the real scope of the problem.

Something is changing fast and the real magnitude of the consequences is still unpredictable. The influx into the oceans of abnormal amounts of water resulting from the increasingly intense summer defrost not only raises the sea level and the impact of tides, but also increases the destructive potential of these ones and of coastal storms, not to mention possible tsunamis, which harass with irregular frequency some regions of the planet. On the other hand, it is quite likely that this considerable influx of water into the oceans may cause shifts in temperature and path of ocean currents, thus causing strong impacts on various regional climates, affecting their biodiversity and their economy. Truly dramatic consequences could occur in just a few years. Events and transformations that for a long time seemed to happen only in a gradual way can suddenly rush and completely subvert any previous calculations and expectations.

The quick melting of “permafrost”, for example, poses a considerable sanitary threat. Many experts believe that in those frozen soils may be trapped viruses and bacteria associated to past diseases, some of them entirely unknown, others supposedly extinct. The probability of a lethal pandemic arising is not to be ignored, even considering the current means of medicine. Humanity is still living the disruptive effects of a relatively benign pandemic, whose average mortality rate is only about 2% of known unvaccinated infected (if we consider the real number of infected people, including those asymptomatic or undiagnosed, the mortality rate is even lower). But not too far back in time, the fourteenth-century Black Plague is known to have wiped out over a half of the European population, which by then was much more dispersed and rural than it is now. We can imagine what could happen nowadays with any equally deadly microorganism, or even less mortiferous, should it be spread amongst modern urban crowds with their high population density, also considering the ease and speed of the transportation means of today.

The displacement of climate zones or the persistent alteration of their usual temperature and pluviosity patterns may also have repercussions beyond expectations. Traditional agriculture for self-sustainment may be rendered unviable, much of both fauna and flora of each affected region may not be able to survive the changes, entire ecosystems may be destroyed, economic sectors may be prone to significant decreases and constrictions, scarcity of food and other essentials may become the norm, several sources of income may be extinguished, civil wars and urban turmoil may break out, transmissible diseases of various sorts and latitudes could find new areas on which to propagate themselves. It should be noted that all these scenarios are of high probability, rather than a simple product of imagination.

And with an aggravating factor: global warming will not be evenly distributed across the planet, contrary to what many tend to believe. We’ll be witnessing, more and more frequently, an intensification of extreme weather phenomena, including great waves of intense heat or freezing cold, some of them in regions where they were not at all usual or even expectable. Recent events show that both torrid heat and polar cold may in the future appear where least expected, due to drastic changes in atmospheric currents, and flooding rains may fall in places that used to have moderate rainfall. In fact, we are already getting used to suffocating heat waves in northern countries, to large forest fires in USA, Canada, Sweden and Siberia, and the Mediterranean area is chronically becoming a great summer hell.

 Initially, it was thought that regions which were already hot would tend to become hotter and normally cold regions could become even colder, but this prediction proved to be partially wrong, as extremes of temperature and rainfall now seem to escape all logic and all forecasting models, appearing almost anywhere without warning. Diluvial rains have recently fallen in such disparate places as Germany and neighboring countries, Turkey, China, Japan, Nigeria, the Philippines, and in recent years have also fallen on India, Bangladesh, Iran, Indonesia, Mozambique and South Africa, among other places. Climate appears out of control almost everywhere and, in line with this global trend, areas that were once temperate may be ceasing to be so very soon. Seasons themselves are breaking out of the usual patterns, either in sequence or in length, and in some regions they are becoming unrecognizable. It goes without saying how much all this can affect countless economic activities in each country (including the destruction of soils and crops), damage buildings and infrastructures or hinder geographic mobility, one of the fundamental components of modern life.

What we have been able to observe in recent years leads to two inevitable conclusions: while for a long time we feared mostly a gradual sea level rise and its possible effects upon coastal areas, we are now faced with the more immediate and equally destructive threat posed by diluvial rains and floods of biblical proportions, which may occur suddenly and almost anywhere, even right in the interior of continents; and although many analysts and leaders conceived scenarios predicting relatively moderate increases in global average temperature over the next few decades, we are in fact facing large disparities in the worsening of average local temperatures, which in some parts of the world is being much more intense and faster than initially thought, and we become astonished by the appearance of infernal heat waves in the most unlikely regions, which make us put into question, by their consequences, even the theoretical boundaries of the most pessimistic scenarios. The Arctic, for instance, is warming up thrice as quickly as the rest of the planet and its winters are getting warmer, thereby hampering ice formation, whereas in the rest of the year forest fires are becoming more frequent and intense, while the extent of the defrost is becoming continually wider.

The average temperature of Earth has risen by about 1°C from the pre-industrial era to the turn of the millennium, and from then onwards until the end of the present decade it will have worsened by another 0.5°C, reaching twenty years ahead of schedule the 1.5°C limit that the 2015 Paris Agreement had proposed as a target for participating countries. This means, in approximate terms, that global warming’s rhythm has tripled since the already obsolete Kyoto Protocol of 1997. Despite all the political rhetoric and the amount of good intentions that has been announced, the truth is that more than half of the carbon dioxide released into the atmosphere by burning fossil fuels was emitted only in the last three decades. And instead of decreasing, as would be supposed by the application of restrictive policies, from 1990 to 2020 the annual global emissions of greenhouse gases grew 41% and are still increasing with each passing year. This clearly shows that the great imminent threats are still not taken seriously enough, despite all the mediatic and ideological outcry.

Meanwhile, obedient only to natural laws and unmindful of diplomatic efforts, our planet keeps on warming up. And as a result of the uneven distribution of average temperature rise, some parts of the world are heating much faster than others. Soon, many of them will become uninhabitable or suffer severe blows to their traditional livelihoods. The consequences are hardly predictable in their magnitude, but one of them is certain: the emergence of increasing waves of climate refugees, in search of survival or a better life, fleeing from intense heat, desertification, floods, famine or violence generated by the scarcity of resources. Up until the midst of our century, it could be hundreds of millions. It remains to be seen which countries will be able and willing to welcome them, in a world full of ethnic and identity conflicts and where migration is already one of the most important factors of civil conflict (and even, in some cases, diplomatic or military). Racial and ethnic mixtures, cultural and religious clashes, linguistic divisions and everyday customs, as well as the notorious difficulties in the full integration of immigrants (who, in many cases, do not want to be assimilated) are bringing countless societies to the boil. A considerable increase in migratory pressure, even if triggered by situations of humanitarian crisis, does not bode well. Besides having to face the unrestrained violence of the climate change, everything suggests that we’ll also have decades of social upheaval and the proliferation of civil unrest ahead of us. As popular wisdom says, a tragedy never comes alone.

sábado, 16 de outubro de 2021

Alterações climáticas: O TRIUNFO DA IGNORÂNCIA

Para quem se interessa um pouco por política ou pelos seus bastidores, a vida partidária fornece pretexto todos os dias para uma dose abundante de críticas, análises, comentários e maledicências, mas toda essa atenção ao enredo histórico presente e aos seus personagens impede-nos de ver um dos grandes cenários de fundo: a iminência de enormes e sucessivas catástrofes devidas às alterações climáticas em curso.

Mesmo uma larga maioria da humanidade culta ou instruída tem hoje apenas uma pálida ideia do que está para acontecer, se não formos já a tempo de o impedir. E quanto à humanidade subdesenvolvida ou pouco escolarizada, que ainda é sem dúvida a maior porção dela em todos os continentes, essa está tão a leste de todos os problemas globais que nem consegue imaginar que poderá ser ela, com toda a probabilidade, a que mais depressa e mais intensamente irá sofrer, por pobreza ou imprevidência, as consequências que se avizinham.

Nos países relativamente avançados, incluindo o nosso, as questões ambientais e climáticas têm sido muito badaladas e de tempos a tempos tornam-se uma questão de moda política ou intelectual, ou invadem até a agenda mediática, mas apesar disso têm sido largamente subestimadas.

Existe uma noção difusa de que as alterações climáticas irão sobretudo afetar lugares remotos, pelo menos no curto prazo, e de que as regiões desenvolvidas saberão encontrar os meios para se adaptarem gradualmente aos seus efeitos. Talvez os encontrem, mas não é certo; em todo o caso, não conseguirão impedir enormes devastações nos seus territórios e nas suas economias, porque falamos de acontecimentos que transcendem em muito a ordem de grandeza da política comum e dos seus efémeros eventos.

Não se trata apenas de combater a poluição atmosférica ou a acumulação de lixo nos oceanos, ou de retardar o ritmo de subida do nível dos mares, ou de moderar a extinção em massa de espécies que está a ocorrer.

O que está em causa é algo muito, muito maior e pior. Não há sequer uma escala adequada para traduzir as ameaças a que estamos expostos e as suas consequências biológicas e civilizacionais. O termo “catástrofe” pode nem ser suficiente e ilustrativo, se conseguirmos imaginar o estado de carência e caos generalizado a que poderemos ficar sujeitos por causa de grandes devastações naturais provocadas pelo clima. Apesar de tudo, estamos habituados a enfrentar catástrofes de algum tipo de vez em quando… Mas nada nos preparou para o que aí vem: alterações tão súbitas e profundas do nosso habitat que nem saberemos bem como as enfrentar, mesmo com toda a ciência e tecnologia de que dispomos.

Um dos erros que grassa na opinião pública e nos planos de muitos dirigentes é a crença de que a mudança climática é um processo lento e gradual. Infelizmente, não é.

A mudança climática começou por ser lenta, enquanto foram relativamente modestas as causas que a impulsionaram. Mas essas causas têm-se avolumado e várias outras entretanto se lhes juntaram, de modo que os seus efeitos se vão progressivamente agigantando e adquirindo um ritmo crescente. Ou seja: vão ocorrendo catástrofes de certos tipos (secas, incêndios florestais, tempestades, cheias, pragas, epidemias) com cada vez maior intensidade e com intervalos de tempo cada vez menores.

Esta intensidade e esta frequência crescentes são apenas dois dos aspetos que estão implícitos no conceito de “crescimento exponencial”, uma noção matemática que muita gente agora costuma utilizar (incluindo jornalistas) sem saber exatamente o que significa. Ora um fenómeno exponencial não é apenas um fenómeno cujos efeitos vão aumentando e se acumulam, é sobretudo um fenómeno cujos efeitos se multiplicam. Ou seja: que está em constante aceleração, como acontece atualmente com o aquecimento global e com a subida do nível dos mares.

É isto que importa, acima de tudo, perceber: um fenómeno exponencial deixa de ser lento e deixa de ser gradual. Ele não ocorre a um ritmo constante, mas progressivamente crescente. Tratando-se de fenómenos que originem catástrofes naturais, estas serão cada vez mais extensas, mais frequentes e mais destruidoras, depressa parecendo ultrapassar os limites de toda a previsibilidade humana e da nossa capacidade coletiva para os deter. E tudo se torna ainda pior quando os efeitos de um fenómeno se acrescentam às suas causas, gerando um círculo vicioso, aumentando assim os seus perigos e a sua complexidade. Ora é precisamente nessa situação que nos encontramos. Estamos hoje metidos numa espiral de acontecimentos climáticos cujo desfecho é incerto, mas certamente trágico. O que nos espera doravante talvez seja mais do que uma mera sucessão de catástrofes, poderá ser (pelo menos pela acumulação das suas consequências) um verdadeiro cataclismo global, dado que assistiremos a uma modificação drástica de grande parte da superfície terrestre, dos seus habitats naturais, das suas condições de habitabilidade e dos meios de subsistência das respetivas populações. E não sabemos quão depressa isso poderá acontecer, nem a que ritmo conseguiremos adaptar-nos.

Mas, dir-se-á, com todas as ferramentas científicas de que já dispomos, a nossa capacidade de previsão não está hoje à altura de traçar cenários de futuro mais ou menos realistas? Não, não está, longe disso.

Não é preciso procurar provas muito contundentes. Quando em 1997 políticos e cientistas de todo o mundo elaboraram e assinaram o já histórico Protocolo de Quioto, com vista a combater o aquecimento global, basearam‑se em fenómenos e tendências mensuráveis, ou seja, em análises compatíveis com os dados e instrumentos existentes nessa época. Havia algumas previsões mais otimistas, outras mais pessimistas, mas os acordos foram celebrados tendo como pressuposto um cenário médio, descartando as antecipações mais extremistas de ambos os lados do leque das hipóteses. Contudo, vinte anos depois, foi inevitável chegar-se à conclusão de que as previsões mais pessimistas de então foram estrondosamente ultrapassadas pelos factos – e por uma larguíssima margem. Ou seja: nem mesmo os especialistas mais alarmistas conseguiram antecipar o que veio realmente a acontecer. E isto é perigoso, muito perigoso. Revela, antes de mais, que os nossos conhecimentos de ponta não estavam (e provavelmente ainda não estão) à altura de avaliar toda a dimensão do sarilho climático em que estamos metidos. A subsistência ou mesmo a sobrevivência de uma grande parte da população humana poderá estar futuramente em risco – e nós nem sequer temos ainda plena consciência disso. Nem tão-pouco dos conflitos graves que a eventual escassez de recursos poderá vir a originar…

“Eeeeh, chega de alarmismos”, dirão alguns… “Vamos decerto continuar a fazer o que for necessário para evitar os piores cenários. Não vamos ficar de braços cruzados e tudo se resolverá, melhor ou pior.” Pois, esse voluntarismo otimista é um desejável estado de espírito, mas numa perspetiva de escala, talvez não seja muito mais do que isso. À escala do necessário, é pouco mais que nada. Corremos o risco de em poucas décadas tornar o planeta largamente inabitável e não haverá otimismo que o possa evitar. Precisaremos de muito mais do que isso. Tragicamente, já deixámos as coisas chegar a um ponto em que a prudência e a boa vontade deixaram de ser suficientes. O que é necessário agora é mesmo fazer soar os alarmes todos, ainda que nos meios académicos continue a imperar uma certa aversão ao “alarmismo climático” como condição de alguma credibilidade científica… Mas como diz um velho provérbio, é antes da casa roubada que se devem pôr trancas na porta; e receio que, neste caso, já nem isso vá bastar. Para fazer face aos potenciais problemas e às suas terríveis repercussões, precisaremos de mais do que empenho político e avultados meios financeiros: precisaremos de vários e substanciais avanços científicos e, além disso, de muita tecnologia que ainda não temos nem tão-pouco idealizámos…

As noções erróneas que se difundiram acerca do ritmo das alterações climáticas e dos seus efeitos, supostamente à razão de um tanto por ano ou por década, proporcionaram-nos uma tranquilidade artificial e enganadora sobre o tempo de que dispomos para corrigir as coisas e sobre a urgência com que precisamos fazê-lo. Talvez tudo pudesse ter sido diferente se os cientistas e os meios de comunicação tivessem tentado com mais insistência fazer-nos compreender aquilo que no fundo já todos sabemos: que os fenómenos naturais nem sempre ocorrem gradualmente e que por vezes estão sujeitos a grandes descontinuidades, a alterações súbitas de ritmo ou de intensidade, a interferências que podem atenuar ou agravar aquilo que julgamos previsível. Sim, nós sabemo-lo: aquilo que começa gradualmente (pelo menos, na aparência) pode vir a provocar alterações enormes e súbitas, algumas antecipáveis, outras inesperadas. Mas quando as julgamos apenas hipotéticas ou longínquas, preferimos geralmente não nos preocuparmos demasiado. É uma velha tendência autoprotectora do cérebro: não gerar stress desnecessário. Só que, neste caso, o tiro poderá sair-nos pela culatra.

Já todos vimos imagens de blocos de gelo a despenhar-se em icebergues e glaciares, ou de avalanches em montanhas cobertas de neve. Antes de esse fenómeno acontecer, podem ter estado ativos lentos processos de erosão, mas o desfecho final é rápido. No caso do gelo, após o despenhamento ele irá provavelmente derreter num espaço de tempo relativamente curto, que podemos considerar insignificante quando comparado com o tempo de erosão que foi necessário para o quebrar. Há notícias de icebergues gigantescos que derreteram completamente em poucos dias ou semanas. De facto, não há como contornar as leis da física: em condições naturais, quando a temperatura envolvente atinge ou se aproxima dos zero graus, o gelo começa a derreter e derrete tanto mais rapidamente quando maior for a superfície exposta a uma temperatura superior. E quanto menos compacto ou quanto mais fissurado o gelo estiver, em consequência de erosão anterior, mais facilmente se quebra e mais depressa derrete. E quanto mais intensa uma vaga de calor, menos tempo resiste.

Significa isto que, se houver aumentos anormais de temperatura na atmosfera ou nas correntes oceânicas, grandes massas de gelo podem derreter num curto espaço de tempo, num ritmo bastante superior àquele de que temos conhecimento no último quarto de século. Desde 1992 até aos nossos dias, a Antártida e a Gronelândia, que têm os dois maiores mantos de gelo do planeta, perderam mais de sete triliões de toneladas de gelo e essa perda resultou numa elevação do nível global do mar superior a dois centímetros. Porém, esta escala aparentemente pequena dá-nos apenas uma modesta noção do que tal pode significar em termos de erosão e inundações costeiras, e não fornece de modo algum uma bitola segura para avaliar o que se possa vir a verificar nesta década em que estamos e nas seguintes, porque o derretimento das grandes massas geladas está em óbvia aceleração e expansão. Satélites da NASA detetaram em 2012 que a superfície em que se verificava o derretimento do manto de gelo da Gronelândia tinha passado dos habituais 40% durante os meses de verão para uns surpreendentes 97% em apenas alguns dias, devido a uma vaga de calor na atmosfera, e os cientistas foram forçados a concluir que a repetição de fenómenos deste género poderia levar a um rápido degelo total. Longe fique o agoiro: se todo o manto de gelo da Gronelândia, que cobre aproximadamente 80% do seu território, derretesse completamente, isso faria aumentar o nível dos mares em mais de sete metros. Mas não indo tão longe, se derretesse apenas um sétimo dessa enorme massa gelada, a subida das águas seria aproximadamente de um metro, inundando a maioria das cidades costeiras do mundo e implicando a perda de grandes quantidades de território litoral em todos os continentes, assim como o desaparecimento de inúmeras ilhas. Pensar que isso só possa acontecer gradualmente e ao longo de várias décadas é uma ingenuidade demasiado perigosa. E também o é imaginar o derretimento parcial da Gronelândia como um fenómeno isolado, esquecendo a contribuição do degelo simultâneo noutras massas geladas do planeta.

Alguns estudos climáticos indicam que o Ártico poderá ficar sem gelo até 2035, devido à subida das temperaturas na região. Uma das consequências mais temidas é o derretimento do chamado “permafrost”, uma vasta quantidade de solo que passa todo o ano congelado e que cobre 25% da superfície terrestre do Hemisfério Norte, sobretudo no Canadá, Gronelândia e Rússia, mas também na Noruega e no Alasca. Ele abriga no seu interior dióxido de carbono, metano e mercúrio tóxico, além de ser um reservatório de vírus e bactérias com os quais a humanidade recente nunca teve contacto e contra os quais muito provavelmente não tem imunidade.

O “permafrost” é constituído por uma mistura de terra, gelo e rochas permanentemente congelados, constituindo uma camada que é recoberta por uma outra de gelo e neve que no inverno chega a atingir 300 metros de profundidade em alguns locais, mas que ao derreter-se no verão se reduz para uma espessura de 0,5 a 2 metros apenas (tornando a superfície do solo pantanosa, uma vez que as águas superficiais não são absorvidas pelo solo congelado, o que faz diminuir a sua capacidade de reflexão solar). Este solo congelado é rico em material orgânico que se decompõe lentamente; mas quando o “permafrost” derrete, bactérias e fungos decompõem o carbono contido na matéria orgânica muito mais rapidamente, libertando-o na atmosfera como dióxido de carbono ou metano, ambos gases com efeito de estufa. E os cientistas descrevem um círculo vicioso: os gases emitidos pelo “permafrost” aceleram o aquecimento global, que por sua vez acelera o derretimento do “permafrost”. Em linguagem comum, é um “efeito bola de neve”.

De acordo com um estudo recente, só o “permafrost” no Hemisfério Norte contém mais do dobro da quantidade de carbono já existente na atmosfera, e o seu rápido degelo pode torná-lo um contribuinte significativo para a mudança climática global. A quantidade de dióxido de carbono e metano que poderá adicionar à atmosfera depende da rapidez com que descongela, mas há evidências de que uma série de verões anormalmente quentes estão a acelerar bastante o seu degelo e a desbastar drasticamente as camadas superiores de gigantescos blocos de gelo subterrâneos que estiveram solidamente congelados durante milénios. Em vastas porções de território gelado, pode levar tempo até que em muitos locais seja atingido o ponto de descongelação, mas onde este for atingido, a descongelação em si mesma é um fenómeno rápido e, quase poderíamos dizer, abrupto, que não encaixa na nossa noção de algo progressivo ou gradual.

Imaginemos um bloco de gelo marinho à temperatura inicial de -25ºC. Se a temperatura envolvente subir ou oscilar, durante muito tempo aparentemente nada se passa até ser atingido o ponto de descongelação, que no caso do gelo marinho é de cerca de -2ºC (um pouco mais baixo do que para o gelo “puro”, devido à quantidade de sais dissolvidos, o que o torna ainda mais vulnerável). Mas ao ser atingido o ponto de descongelação, por mais tempo que tenha decorrido e por mais oscilações térmicas que tenham entretanto acontecido, o gelo descongela mesmo e tanto mais depressa quanto mais elevada for a temperatura envolvente. Aliás, sabemos por experiência e pelas leis da física que outras alterações de estado da matéria também acontecem de modo mais ou menos abrupto: quando pomos uma cafeteira de água a aquecer, temos de esperar algum tempo até a temperatura subir o suficiente, e esse aquecimento pode-nos parecer lento e gradual, mas quando são atingidos os 100ºC a água começa imediatamente a ferver e a evaporar-se e, por mais que façamos, já não conseguimos devolver o vapor à cafeteira… Isto pode ser simples de entender, mas em condições naturais as coisas são um pouco mais complexas e, por isso, menos previsíveis.

O facto de o “permafrost” ser composto por diversos materiais, com diferentes pontos de congelação e diferentes graus de coesão, pode torná-lo mais vulnerável a desagregação e fissuras do que as grandes massas homogéneas de gelo, aumentando muito o seu grau de exposição e o seu potencial de erosão, e fazendo com que o seu derretimento seja bastante mais acelerado do que o inicialmente previsto. De um modo geral, o aumento da irregularidade do relevo e o aumento do número de falhas nestes solos constitui um acréscimo de vulnerabilidade ao degelo – e isso está a acontecer a um ritmo alarmante, em grande parte da zona ártica. Paradoxalmente, em vez de se preocuparem com esse fenómeno e outros relacionados, muitos dirigentes políticos da região estão empenhadamente a analisar como retirar do degelo do Ártico vantagens para a navegação comercial e para a criação de novos portos, sem perceberem a extensão da ameaça ou o real alcance do problema.

Algo está a mudar rapidamente e a magnitude real das consequências é imprevisível. O afluxo aos oceanos de anormais quantidades de água resultantes do degelo estival cada vez mais intenso não só faz subir o nível das águas e o impacto das marés, como aumenta o potencial destruidor destas e das tempestades costeiras, para já não falar do de eventuais tsunamis, que fustigam com frequência irregular algumas regiões do planeta. Por outro lado, é bastante provável que esse considerável afluxo de água aos oceanos possa provocar alterações na temperatura ou no trajeto das correntes oceânicas, causando assim impactos acrescidos em diversos climas regionais, afetando a sua biodiversidade e a sua economia. Consequências verdadeiramente dramáticas poderão ocorrer em poucos anos. Acontecimentos e transformações que durante muito tempo pareceram que só iriam ocorrer gradualmente podem precipitar-se de repente e subverter por completo quaisquer cálculos e expectativas anteriores.

O derretimento acelerado do “permafrost”, por exemplo, representa um enorme risco sanitário. Muitos cientistas consideram que nesses solos congelados podem estar aprisionados vírus e bactérias associados a doenças do passado, algumas completamente desconhecidas, outras aparentemente extintas. A probabilidade de uma pandemia mortífera não é negligenciável, mesmo com os meios atuais da medicina. A humanidade está ainda a experienciar os efeitos disruptivos de uma pandemia relativamente benigna, cuja taxa média de mortalidade é de apenas 2% em relação ao total de infetados conhecidos não vacinados (se considerarmos o número real de infetados, incluindo os assintomáticos e os não diagnosticados, a taxa de mortalidade é ainda menor). Mas não muito distante no tempo, a peste negra do século XIV vitimou mais de metade da população europeia, que era então muitíssimo mais dispersa e rural do que agora. Imagine-se o que poderia acontecer atualmente com qualquer micro-organismo igualmente mortífero, ou até menos, com a concentração urbana, a densidade populacional, a facilidade e a rapidez dos transportes nos tempos de hoje.

A simples deslocação das zonas climáticas ou a alteração dos seus padrões habituais de temperatura e pluviosidade podem também ter repercussões para além do imaginável. Culturas tradicionais de subsistência podem tornar-se inviáveis, boa parte da fauna e flora de cada região afetada pode não conseguir sobreviver às alterações, ecossistemas inteiros podem ser destruídos, as atividades económicas podem sofrer abalos e estrangulamentos de grande magnitude, a escassez alimentar e de outros produtos essenciais pode vir a instalar-se com regularidade, certas fontes de rendimento podem desaparecer por completo, guerras civis e tumultos urbanos podem eclodir, doenças transmissíveis de outras latitudes podem encontrar novas zonas de implantação. Resta acrescentar que estes cenários são, todos eles, de elevada probabilidade e não um mero exercício de imaginação.

E com uma agravante: o aquecimento global não vai ser uniformemente distribuído por todo o planeta, ao contrário do que muitos tendem a acreditar. Assistiremos com frequência crescente a uma intensificação de fenómenos climatéricos extremos, com grandes vagas de calor ou de frio gélido, algumas delas em regiões onde não eram de todo habituais ou sequer expectáveis. O calor tórrido e o frio polar poderão no futuro surgir onde menos se espere, devido a drásticas alterações das correntes atmosféricas, e chuvas diluvianas poderão desabar em locais que eram de pluviosidade moderada. Estamos a habituar-nos a ondas de calor sufocante em países setentrionais, a grandes incêndios florestais nos EUA e até no Canadá, na Suécia e na Sibéria, e a zona mediterrânica está a tornar-se cronicamente um grande inferno estival. Inicialmente, pensou-se que regiões que já eram quentes tenderiam a tornar-se mais quentes e regiões habitualmente frias poderiam tornar-se ainda mais frias, mas essa previsão falhou parcialmente, pois fenómenos extremos de temperatura e pluviosidade parecem agora fugir a toda a lógica e a todos os modelos de previsão, surgindo quase em qualquer parte sem se fazer anunciar. Chuvas diluvianas caíram recentemente em locais tão díspares como a Alemanha e países limítrofes, Turquia, China, Japão, Nigéria, Filipinas, e nos últimos anos desabaram também sobre a Índia, Bangladesh, Irão, Indonésia, Moçambique e África do Sul, entre outros lugares. O clima parece descontrolado em quase toda a parte e, acompanhando esta tendência global, as zonas que eram de climas temperados parecem estar em vias de deixar de o ser. As próprias estações do ano estão a fugir aos padrões habituais, quer em sequência quer em duração, e nalgumas regiões estão a ficar irreconhecíveis. Escusado será frisar quanto tudo isto pode afetar inúmeras atividades económicas em cada país (incluindo a destruição de solos e culturas), causar danos em edifícios e infraestruturas ou dificultar a mobilidade geográfica, um dos componentes fundamentais da vida moderna.

O que pudemos observar nos últimos anos aponta para duas conclusões inevitáveis: enquanto durante muito tempo andámos a temer sobretudo a gradual elevação do nível das águas do mar e as suas possíveis consequências nas zonas litorais, estamos agora confrontados com a perigosidade bem mais imediata e igualmente destruidora de chuvas diluvianas e cheias de proporções bíblicas, que podem ocorrer de súbito e quase em qualquer lugar, bem no interior dos continentes; e enquanto muitos analistas e dirigentes traçaram cenários que previam aumentos relativamente moderados da temperatura global ao longo das próximas décadas, estamos de facto perante grandes disparidades no agravamento das temperaturas médias, que nalgumas zonas do globo está a ser bem mais intenso e rápido do que se previra, e atónitos com o surgimento de vagas de calor infernais nas regiões mais improváveis, capazes de pôr em causa, pelas suas consequências, até a razoabilidade dos cenários mais pessimistas. O Ártico, por exemplo, está a aquecer três vezes mais depressa que o resto do planeta e os seus invernos são cada vez mais quentes, prejudicando a formação dos gelos, ao passo que no resto do ano os incêndios florestais são cada vez mais frequentes e intensos e a extensão do degelo cada vez maior.

Enquanto a temperatura média da Terra subiu cerca de 1ºC desde a era pré-industrial até ao virar do milénio, a partir deste e até ao final da presente década ter-se-á agravado em mais 0,5ºC, atingindo vinte anos antes do previsto o limite de 1,5º C que o Acordo de Paris de 2015 tinha proposto como meta aos países participantes. Isso significa, em termos aproximados, que o ritmo de agravamento do aquecimento triplicou desde o já obsoleto Protocolo de Quioto de 1997. Não obstante toda a retórica política e um manancial de boas intenções anunciadas, a verdade é que mais de metade do dióxido de carbono lançado para a atmosfera pela queima de combustíveis fósseis foi emitido apenas nas últimas três décadas. E em vez de ir diminuindo, como seria suposto pela aplicação de políticas restritivas, desde 1990 a 2020 as emissões globais anuais de gases com efeito de estufa cresceram 41% e ainda estão a aumentar a cada ano que passa. Isso mostra bem que as grandes ameaças iminentes continuam a não ser levadas suficientemente a sério, apesar de todo o alarido mediático e ideológico.

Entretanto, obediente apenas às leis da natureza e alheio aos esforços diplomáticos, o planeta vai aquecendo mais. E em consequência da distribuição desigual do aumento médio da temperatura, alguns locais do mundo estão a aquecer bem mais rapidamente do que outros. Em breve, muitos deles ficarão inabitáveis ou sofrerão golpes severos nos seus tradicionais meios de subsistência. As consequências são dificilmente previsíveis na sua magnitude, mas uma delas é certa: o surgimento de vagas crescentes de refugiados climáticos, em busca da sobrevivência ou de uma vida melhor, fugindo ao calor intenso, à desertificação, às inundações, à fome ou à violência gerada pela escassez de recursos. Até meados deste século, poderão ser centenas de milhões. Resta saber quem terá capacidade e disposição para os acolher, num mundo repleto de conflitos étnicos e identitários e onde as migrações são já um dos mais importantes fatores de conflitualidade civil (e mesmo, nalguns casos, diplomática ou militar). As misturas raciais e étnicas, os choques culturais e religiosos, as divisões linguísticas e os costumes quotidianos, bem como as notórias dificuldades de integração plena dos imigrantes (que, em muitos casos, não querem ser assimilados) estão a pôr em ebulição inúmeras sociedades por esse mundo fora. Um aumento considerável da pressão migratória, mesmo que desencadeado por situações de crise humanitária, não augura nada de bom. Além de termos de enfrentar a violência desmedida do clima, tudo faz prever que tenhamos também pela frente décadas de convulsão social e a proliferação de tumultos civis. Como diz a sabedoria popular, uma tragédia nunca vem só.

sábado, 16 de janeiro de 2021

A "IVª República" trocada por miúdos (introdução)

 Num despretensioso livro de história geral encontrei há tempos esta frase simples, mas lapidar: “(…) se derrubarmos um sistema injusto sem termos uma ideia clara daquilo que o vai substituir, em última instância as coisas podem mudar muito menos do que esperávamos – ou então mudar de uma maneira completamente diferente.

Embora estas considerações se reportassem aos acontecimentos que precederam a Revolução Francesa, elas assentam que nem uma luva aos partidários lusos da chamada “IVª República”, muitos dos quais usam a expressão apenas para exprimir um vago anseio de mudança política radical, sem terem ideias muito definidas acerca dos princípios orientadores que a devem inspirar. E não admira: trata-se de um conceito que foi atirado para a ribalta política antes de ter sido devidamente moldado e aplainado. Por isso mesmo, torna-se urgente definir os seus contornos.

Não chega associar um ideal de mudança com simples aspirações de ordem geral, tais como: menos socialismo, menos criminalidade, menos corrupção, menos impostos, menos imigrantes. Tudo isso é perfeitamente compatível com o regime na sua actual forma e depende sobretudo de resultados eleitorais e orientações governativas. A ideia de uma IVª República tem de significar mais do que isso. Tem de implicar uma alteração substancial do próprio sistema político e dos princípios constitucionais que o regem, assim como da estrutura e funcionamento do Estado (em sentido amplo).

É possível desdobrá-la em, pelo menos, quatro vertentes:

1. Uma significativa alteração constitucional

2. Um novo sistema político

3. Uma reforma das leis eleitorais

4. Uma reforma do Estado (desconcentração de competências, descentralização de organismos, leis anti-corrupção e anti-nepotismo, regime de exclusividade dos titulares de cargos políticos, desburocratização, desregulamentação, digitalização)

Estas são as mudanças necessárias que deverão balizar os novos contornos do regime e albergar dentro de si as disputas partidárias, tanto as ideológicas como as programáticas. Não devem ser confundidas com orientações de governo nem com a supremacia de qualquer partido redentor. Se o regime continua a ser democrático, como indubitavelmente se pretende, ele não tem de fazer previamente as escolhas governativas que competem ao eleitorado. Não tem que fazer opções entre o liberalismo ou o socialismo, por exemplo, nem determinar orientações num sentido ou no outro.

No essencial, o que é preciso é remover os condicionamentos arbitrários que actualmente enviesam as normas e os procedimentos e as decisões a favor de uma concepção abrangente do socialismo, constitucionalmente consagrada numa época já ultrapassada em que a própria Constituição foi votada sob tutela militar e em circunstâncias ainda de turbulência revolucionária. É preciso retirar-lhe as amarras e devolver aos actos eleitorais e às opções governativas a amplitude de escolha que lhes foi negada. É preciso ampliar e revitalizar um espectro político que foi intencionalmente truncado à direita, de modo a favorecer maiorias de esquerda e a deslocar o centro, desacreditando-o, assim prejudicando o equilíbrio e a simetria do sistema.

A perversão ideológica que foi introduzida na Constituição e no funcionamento das instituições tem de ser eliminada. Mas, por outro lado, é preciso defender a estabilidade essencial de certas funções do Estado, que não podem ficar levianamente sujeitas aos efeitos destrutivos de um excesso de alternância ideológica, ou dito de outra maneira, de uma “política em ziguezague”. É esse o caso dos sistemas de educação e de saúde, por exemplo, ou do ordenamento do território, das leis da nacionalidade ou da política de população. Há certas leis estruturantes que não podem ficar à mercê de maiorias instáveis ou tangenciais e cuja alteração deve requerer maiorias qualificadas ou um certo espaçamento temporal. De facto, em algumas matérias, a falta de democracia pode ser tão perniciosa como o excesso de democracia, o que requer uma nova e cuidadosa ponderação constitucional.

Por conseguinte, falar da “IVª República” tem muito que se lhe diga. Por enquanto, este conceito exprime a necessidade indesmentível de uma mudança profunda. Mas é preciso detalhar melhor em que direcção devemos ir, para que não saia o tiro pela culatra. Há muito estudo e debate pela frente, por muito que isso doa aos apressados. Como diz o adágio: “depressa e bem, não há quem”. Mas é altura de pôr os pés ao caminho.

Nos próximos “posts”, tentarei dar alguns contributos.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O fraco entendimento da economia

Está a tornar-se demasiado evidente que o governo não tem, nem sequer aproximadamente, a noção da hecatombe que está prestes a provocar na economia. Os ministros responsáveis parecem comportar-se como se acreditassem que, debelada ou controlada a pandemia, uma rápida retoma acontecerá. Mas não vai acontecer. Nem em V, nem em U, nem em qualquer outra forma simétrica. 

Destruir é muito mais fácil e rápido do que reconstruir, como todas as guerras provam, e esta não será excepção. Muitas empresas irão desaparecer para sempre, muitos empresários ficarão insolventes ou descapitalizados e incapazes de retomar actividade, muitos outros já não terão confiança ou ânimo ou idade para o fazer, e muitas das cadeias de produção e abastecimento que existiam irão romper-se ou enfraquecer. Como em qualquer cadeia alimentar no mundo animal, passe a analogia, também no mundo económico as perturbações nas cadeias de transmissão de bens e serviços se repercutem a montante e a jusante.

De facto, é perigoso julgar que restrições prolongadas impostas a qualquer sector não irão provocar-lhe danos potencialmente irreversíveis ou que irão afectá-lo só a ele. E não é apenas por causa do risco de falências e despedimentos em massa. A descapitalização das empresas tem geralmente efeitos negativos duradouros no investimento e no emprego, e desse modo acaba por repercutir-se em várias direcções.

Quando um sector económico entra em declínio, ele põe também em xeque toda a sua cadeia de fornecedores, a não ser que isso seja compensado por outros sectores em expansão. E se não for? E se houver vários outros sectores em declínio mais ou menos simultâneo? Ao gerar menos rendimento (em lucros, dividendos e salários), esta conjunção negativa também irá induzir menos despesa, reduzindo outros fluxos económicos e pressionando no sentido da deflação (uma perigosa baixa generalizada de preços, por insuficiência da procura). Para além de certos limites, a forte contracção económica pode até desencadear um efeito “bola de neve”, provocando uma recessão ainda mais severa ou mesmo uma depressão.

Ora, com uma pandemia em curso, o cenário já era terrivelmente negativo à partida, apenas com a redução da mobilidade e do turismo e com o confinamento voluntário de muitas pessoas. Num tal pano de fundo, decisões políticas desastradas podem vir a ser fatais para muitos empregos, empresas e áreas de negócio, para já não falar da dramática perda de receitas fiscais pelo próprio Estado (outro pesadelo cujas consequências se irão também abater em breve sobre os contribuintes e os serviços públicos).

Poucos são os políticos que compreendem o “efeito multiplicador” das decisões que tomam sobre a economia. Quando são efectuadas despesas pelos agentes económicos, elas geram rendimentos que vão sustentar outras despesas por parte de quem os auferiu, e assim sucessivamente. Portanto, cada euro gasto gera muito mais do que isso em actividade económica. Mas quando as coisas sucedem ao contrário e os rendimentos se contraem, passando a sustentar menos despesas de investimento ou de consumo, o “efeito multiplicador” também actua, mas em sentido inverso (por isso, há economistas que preferem chamar-lhe “efeito desmultiplicador”, o que talvez seja mais apropriado). Em tais circunstâncias, cada euro gasto a menos reduz em muito mais do que isso a actividade económica, o que, em larga escala, pode ter graves consequências. Por conseguinte, quando as decisões políticas fazem contrair ainda mais os rendimentos e as despesas em ambiente de recessão, nunca se sabe ao certo onde e quando esta irá parar mas o prognóstico não é risonho.

Uma quase imediata recessão veio naturalmente em consequência da pandemia. Desde o início dela se percebeu que iria afectar gravemente a economia, mesmo sem quaisquer decisões do governo. Mas muitas das que têm sido tomadas, umas por necessidade, outras por improviso, outras por desnorte, tendem a reforçar bastante a tendência recessiva. Em breve saberemos aonde este declive acentuado nos irá levar, mas preparem-se para algo desagradável.

Entretanto, seria bom que alguém conseguisse explicar ao governo quão perigoso é continuar a pressionar tanto com o joelho o já debilitado pescoço da economia…

domingo, 13 de dezembro de 2020

(COVID-19:) Escolher entre o risco e o colapso

Estamos bem pior do que nos dizem. Não estamos literalmente entre a espada e a parede, mas é algo parecido: estamos condenados a escolher entre a saúde e a economia, ou pondo as coisas do avesso, entre a doença e o empobrecimento. Essa escolha nem sequer é em alternativa, é apenas uma questão de dosagem, porque nada nos salvará, colectivamente falando, de continuar por mais algum tempo a ter ambas em simultâneo. Podemos é precipitar mais os acontecimentos num sentido ou no outro.

Essa escolha tem como um dos seus principais efeitos dividir o país. A parte da população que tem rendimentos garantidos, com todo o pessoal político e o funcionalismo público à cabeça, tenderá naturalmente a dar prioridade à questão sanitária e será mais favorável a medidas severas de contenção ou confinamento. Todos os outros, que são mais vulneráveis nos seus rendimentos e que, para os manter em nível suficiente, dependem largamente do estado de saúde das empresas e negócios em que trabalham, tenderão a dar prioridade à questão económica, aceitando um nível maior de exposição e de risco. Para ambas as partes, são importantes a segurança e a subsistência, mas cada uma tenderá a querer proteger mais o flanco onde se sente mais vulnerável.

É portanto previsível que, à medida que a situação se arrasta, vá alastrando uma espécie de guerra civil na opinião pública e na opinião publicada, uns pugnando por restrições mais severas destinadas a conter a pandemia, outros defendendo que se está a tornar muito mais lesiva a cura do que a doença. Para aqueles que já vão tendo dificuldades em pôr comida na mesa e pagar as contas, não há grandes dúvidas: é preferível o risco ao colapso. E haverá cada vez menos tolerância para que alguém lhes imponha a escolha contrária. Esperemos que não haja demasiada gente a entrar em desespero, ou as coisas podem complicar-se nas ruas.

Não é nada fácil ser governante nos dias que correm. Mais difícil ainda se torna a tarefa se, por ignorância ou precipitação, se cometem erros sucessivos, indo ao sabor da corrente, ou desleixos graves, por manifesta imprevidência. Pior ainda se, por teimosia política, não se substituem os responsáveis que demonstraram incompetência. Mas onde se começa a desafiar o destino é quando se aceita que a demagogia se sobreponha à realidade e, principalmente, às necessidades que esta dita. E é isso que já está a acontecer.

Para começar, não nos dizem toda a verdade, nem sobre a evolução previsível da pandemia, nem sobre o inevitável afundanço da actividade económica num futuro próximo. E sempre que conveniente, mentem-nos despudoradamente. Na inconsistente tentativa de evitar o medo ou o descontentamento, não se preparam as pessoas para o pior nem se recomendam precauções financeiras. E chega-se até ao ponto de fazer publicidade enganosa nos anunciados apoios públicos às empresas em dificuldades.

Como se não bastasse, impõem-se a muitas actividades económicas restrições incomportáveis e onde por vezes falta racionalidade. De que serve encurtarem-se os horários do comércio, se depois os clientes vão aglomerar-se muito mais a fazer as suas compras nesses horários reduzidos? Por que se fecham parques e ginásios, se continuam abertas todas as escolas e universidades, onde a acumulação de gente é muito maior? Por que não deixam os restaurantes trabalhar mais livremente com as regras sanitárias estabelecidas, se afinal não há grandes alternativas para quem tem de andar quotidianamente em transportes públicos apinhados? Por que se restringe tanto a circulação na rua em certos períodos, mesmo usando máscara e viseira, se para muita gente pode ser maior o risco de contaminação em casa, onde quase ninguém usa viseira nem máscara? Qual a razão de confinamentos tão drásticos, se não tem sido possível evitar surtos alargados nem sequer onde as pessoas vivem mais confinadas, como nos lares de idosos e nas prisões? Muita gente não consegue perceber a lógica disto e, aliás, ainda ninguém conseguiu explicá-la bem.

Mais lamentável do que isso: os dirigentes políticos revelam um considerável desnorte, actuando com sucessivos avanços e recuos, ora dizendo e fazendo uma coisa, ora o seu contrário. Já se percebeu que não estão, de modo nenhum, capacitados para conduzir-nos nesta adversidade. Limitam-se, pois, a fazer o que está ao seu alcance: tentar apaziguar a população, limitar os danos políticos e salvar as carreiras.

Desde o início, a gestão desta crise tem sido desastrada. Se não houver mais bom senso nas decisões políticas, tornar-se-á desastrosa. E é para lá que caminhamos. O fraco entendimento dos mecanismos da economia, tão usual nos governos de esquerda ou de centro-esquerda, tem feito com que se decretem medidas excessivas, cujos efeitos já estão a ser tremendos e que se tornarão em breve devastadores.

Porém, de que servem os numerosos alertas para políticos impreparados que não são capazes de antecipar as prováveis consequências do que decidem? Como persuadi-los de que estão a ir longe demais nas restrições económicas que arbitrariamente impõem e que a fatura a pagar vai ser demasiado pesada para o país (ou, pelo menos, para metade dele)? Nada os demove, a não ser as sondagens e a pressão mediática. Como explicar-lhes, de maneira que eles entendam, que não se pode asfixiar a economia por causa da questão sanitária? Se nada se fizesse, esta pandemia poderia ser fatal para cerca de dois por cento da população; fazendo demais, o colapso económico poderá vir a ser fatal para muito mais gente e sob várias formas. Será assim tão difícil encontrar um meio-termo equilibrado, sem relaxamentos nem garrotes?

Pecar por excesso pode ser tão mau como pecar por defeito. Ou até pior. Entre as duas opções, venha o diabo e escolha. Mas quem começou por pecar por defeito e acaba a pecar por excesso, como este governo tem feito, peca duplamente. O castigo do inferno, no entanto, talvez venha a ficar apenas para os governados, ou mais exactamente, para aquela metade deles que não vive à sombra do Estado.

sábado, 12 de dezembro de 2020

COVID-19: Escolher entre o risco e o colapso

Estamos bem pior do que nos dizem. Não estamos literalmente entre a espada e a parede, mas é algo parecido: estamos condenados a escolher entre a saúde e a economia, ou pondo as coisas do avesso, entre a doença e o empobrecimento. Essa escolha nem sequer é em alternativa, é apenas uma questão de dosagem, porque nada nos salvará, colectivamente falando, de continuar por mais algum tempo a ter ambas em simultâneo. Podemos é precipitar mais os acontecimentos num sentido ou no outro.

Essa escolha tem como um dos seus principais efeitos dividir o país. A parte da população que tem rendimentos garantidos, com todo o pessoal político e o funcionalismo público à cabeça, tenderá naturalmente a dar prioridade à questão sanitária e será mais favorável a medidas severas de contenção ou confinamento. Todos os outros, que são mais vulneráveis nos seus rendimentos e que, para os manter em nível suficiente, dependem largamente do estado de saúde das empresas e negócios em que trabalham, tenderão a dar prioridade à questão económica, aceitando um nível maior de exposição e de risco. Para ambas as partes, são importantes a segurança e a subsistência, mas cada uma tenderá a querer proteger mais o flanco onde se sente mais vulnerável.

É portanto previsível que, à medida que a situação se arrasta, vá alastrando uma espécie de guerra civil na opinião pública e na opinião publicada, uns pugnando por restrições mais severas destinadas a conter a pandemia, outros defendendo que se está a tornar muito mais lesiva a cura do que a doença. Para aqueles que já vão tendo dificuldades em pôr comida na mesa e pagar as contas, não há grandes dúvidas: é preferível o risco ao colapso. E haverá cada vez menos tolerância para que alguém lhes imponha a escolha contrária. Esperemos que não haja demasiada gente a entrar em desespero, ou as coisas podem complicar-se nas ruas.

Não é nada fácil ser governante nos dias que correm. Mais difícil ainda se torna a tarefa se, por ignorância ou precipitação, se cometem erros sucessivos, indo ao sabor da corrente, ou desleixos graves, por manifesta imprevidência. Pior ainda se, por teimosia política, não se substituem os responsáveis que demonstraram incompetência. Mas onde se começa a desafiar o destino é quando se aceita que a demagogia se sobreponha à realidade e, principalmente, às necessidades que esta dita. E é isso que já está a acontecer.

Para começar, não nos dizem toda a verdade, nem sobre a evolução previsível da pandemia, nem sobre o inevitável afundanço da actividade económica num futuro próximo. E sempre que conveniente, mentem-nos despudoradamente. Na inconsistente tentativa de evitar o medo ou o descontentamento, não se preparam as pessoas para o pior nem se recomendam precauções financeiras. E chega-se até ao ponto de fazer publicidade enganosa nos anunciados apoios públicos às empresas em dificuldades.

Como se não bastasse, impõem-se a muitas actividades económicas restrições incomportáveis e onde por vezes falta racionalidade. De que serve encurtarem-se os horários do comércio, se depois os clientes vão aglomerar-se muito mais a fazer as suas compras nesses horários reduzidos? Por que se fecham parques e ginásios, se continuam abertas todas as escolas e universidades, onde a acumulação de gente é muito maior? Por que não deixam os restaurantes trabalhar mais livremente com as regras sanitárias estabelecidas, se afinal não há grandes alternativas para quem tem de andar quotidianamente em transportes públicos apinhados? Por que se restringe tanto a circulação na rua em certos períodos, mesmo usando máscara e viseira, se para muita gente pode ser maior o risco de contaminação em casa, onde quase ninguém usa viseira nem máscara? Qual a razão de confinamentos tão drásticos, se não tem sido possível evitar surtos alargados nem sequer onde as pessoas vivem mais confinadas, como nos lares de idosos e nas prisões? Muita gente não consegue perceber a lógica disto e, aliás, ainda ninguém conseguiu explicá-la bem.

Mais lamentável do que isso: os dirigentes políticos revelam um considerável desnorte, actuando com sucessivos avanços e recuos, ora dizendo e fazendo uma coisa, ora o seu contrário. Já se percebeu que não estão, de modo nenhum, capacitados para conduzir-nos nesta adversidade. Limitam-se, pois, a fazer o que está ao seu alcance: tentar apaziguar a população, limitar os danos políticos e salvar as carreiras.

Desde o início, a gestão desta crise tem sido desastrada. Se não houver mais bom senso nas decisões políticas, tornar-se-á desastrosa. E é para lá que caminhamos. O fraco entendimento dos mecanismos da economia, tão usual nos governos de esquerda ou de centro-esquerda, tem feito com que se decretem medidas excessivas, cujos efeitos já estão a ser tremendos e que se tornarão em breve devastadores.

Porém, de que servem os numerosos alertas para políticos impreparados que não são capazes de antecipar as prováveis consequências do que decidem? Como persuadi-los de que estão a ir longe demais nas restrições económicas que arbitrariamente impõem e que a fatura a pagar vai ser demasiado pesada para o país (ou, pelo menos, para metade dele)? Nada os demove, a não ser as sondagens e a pressão mediática. Como explicar-lhes, de maneira que eles entendam, que não se pode asfixiar a economia por causa da questão sanitária? Se nada se fizesse, esta pandemia poderia ser fatal para cerca de dois por cento da população; fazendo demais, o colapso económico poderá vir a ser fatal para muito mais gente e sob várias formas. Será assim tão difícil encontrar um meio-termo equilibrado, sem relaxamentos nem garrotes?

Pecar por excesso pode ser tão mau como pecar por defeito. Ou até pior. Entre as duas opções, venha o diabo e escolha. Mas quem começou por pecar por defeito e acaba a pecar por excesso, como este governo tem feito, peca duplamente. O castigo do inferno, no entanto, talvez venha a ficar apenas para os governados, ou mais exactamente, para aquela metade deles que não vive à sombra do Estado.