Quando alguém se atreve hoje a falar contra os
excessos migratórios, logo outro alguém o acusa de racismo ou xenofobia. É como
defender que se beba com moderação e ser imediatamente acusado de ser
partidário da Lei Seca.
Nos confrontos ideológicos, nas análises económicas e nas visões de sociedade, a nossa vida política está profundamente impregnada de clichés, frases feitas e ideias ultrapassadas.
sábado, 8 de abril de 2017
sábado, 25 de março de 2017
O que é o populismo, afinal? (3)
Em abstracto, podem distinguir-se
três perspectivas básicas sobre a natureza do populismo. E se duas já bastariam
para turvar um pouco as águas, imagine-se o resultado com mais.
Para uns, o populismo é uma
ideologia que considera a sociedade dividida em dois campos antagónicos e
inconciliáveis, o povo e a elite (ou, no plural, as elites), e que preconiza
alguma espécie de reacção popular, seja ela uma insurreição ou uma revolta eleitoral,
contra o “sistema vigente” (o famoso establishment)
e aqueles que o controlam, isto é, contra a “casta dominante”, os ricos, os
privilegiados, os poderes formais e os poderes fácticos instituídos, em suma,
contra todos os que mandam ou se movimentam nos meandros do poder, supostamente
apenas em proveito próprio ou em prol de um intrincado cartel de interesses.
A sua tónica geral seria a
condenação multifacetada das elites, pela sua ganância ou egoísmo, pela sua
corrupção ou incompetência, pela sua incapacidade ou negligência em promover o
bem-estar geral. E daí derivaria a urgência de subverter ou reformar
radicalmente o próprio sistema político e as orientações tradicionalmente
seguidas nas políticas sectoriais pelos partidos predominantes, fazendo
prevalecer a vontade popular e os interesses da “maioria silenciosa” (entendida
aqui sem quaisquer conotações específicas, apenas como menção genérica ao vasto
número de pessoas a quem apenas se pede o voto e que logo em seguida se ignora,
por que não é para elas que se governa e se faz política).
Para outros, o populismo não
corresponde a uma ideologia em concreto, mas a uma forma de fazer política, e é
por isso que surgem populismos em todos os quadrantes (à esquerda, à direita e
ao centro). O que mais a caracteriza é o aproveitamento meramente táctico dos
descontentamentos existentes, com uma dose generosa de exaltação e oportunismo,
extremando posições e radicalizando a linguagem, explorando as emoções e os
sentimentos mais básicos das pessoas comuns, introduzindo uma conflitualidade
artificial nas pequenas fricções sociais, criando cenários irreais ou fazendo
promessas inviáveis, distorcendo os factos e o seu significado, geralmente com
recurso a uma demagogia capciosa e a uma retórica simplista, tudo isto
guarnecido com uma aparente ausência de visão estratégica e com um reduzido
naipe de objectivos definidos, jogando na própria fluidez e relativa indefinição
para poder concentrar em poucas questões controversas um escasso programa
político, onde desaguem algumas das queixas e frustrações mais comuns entre a
população.
Mas há uma espécie de “terceira
via” das interpretações do populismo que é em parte uma combinação das duas
anteriores e, noutra parte, um acrescento a ambas. Trata-se de admitir que o
populismo é uma certa forma de fazer política que tem um núcleo duro de
doutrina (ou, pelo menos, de ideologia) e que também acrescenta algo ao debate
político, trazendo para a ribalta os interesses e as ideias das pessoas comuns
(ou de uma boa parte delas) que são habitualmente menosprezados pelas elites,
em geral mais vocacionadas para implantar a sua mundivisão do que para
respeitar o senso comum e mais empenhadas em prosseguir os seus interesses e
carreirismos do que em pugnar pelo interesse geral.
Nesta perspectiva das coisas,
torna-se portanto quase natural enfatizar o princípio da soberania popular e
dar voz a grupos que não se sentem adequadamente representados pelo poder
político instituído ou pelos tradicionais partidos de oposição, acusados de
abraçar, cada um a seu modo, causas e medidas “politicamente correctas” (ou
seja, estereotipadas e de matriz ideológica) que não espelham o sentir ou as
convicções de grande parte da população, nem as suas necessidades, nem as suas
reais preferências.
Ora é preciso reconhecer que, se
o populismo dá voz a grupos e tendências que não se sentem representados nos
partidos e coligações que habitualmente alternam no poder político, então ele
funciona como um correctivo democrático, ao promover a politização aberta de questões
que tendem a ser ignoradas ou menosprezadas, mas que encontram eco em muitos
votantes. No caso dos populismos de esquerda, costumam ser sobretudo as
desigualdades económicas gritantes e a falta de protecção de direitos
individuais. No caso dos populismos de direita, costumam ser sobretudo as
consequências dos excessos migratórios e a preservação da identidade nacional.
E no caso dos populismos de centro, pode ser alguma combinação de ambas estas
tendências ou a mera afirmação das vozes moderadas ou híbridas que tendem a ser
desdenhadas ou escarnecidas em sociedades crescentemente radicalizadas. Mas
está sempre presente um certo denominador comum, que é a alegada incapacidade
das elites instaladas para actuarem em sintonia com as necessidades, as
preocupações, os anseios e as expectativas das pessoas comuns, assim esvaziando
na prática o sentido do seu voto.
Esta terceira interpretação do
populismo parece ser a que oferece mais substância.
Se o populismo não tivesse uma
ideologia estruturada, por mais rudimentar que fosse, seria difícil
distingui-la da mera demagogia. Mas tem.
Se o populismo não tivesse uma
estratégia, mesmo que só implicitamente assumida, seria difícil distingui-lo do
mero oportunismo político. Mas tem.
Se o populismo não tivesse factos
e razões a alimentar fartamente a sua capacidade de persuadir e expandir-se,
não alastraria como fogo na palha. Mas tem.
Por estes três motivos, o que de
mais sensato as “elites” podem fazer, enquanto é tempo, é trazer para o centro
do debate político, na sua inteira verdade e crueza, tudo o que está a
contribuir para a proliferação do populismo, assumindo honestamente que não há
fumo sem fogo e que são necessárias soluções urgentes para vários problemas que
há muito andam a ser negligenciados. Mas, ao dizê-lo, refiro-me aos problemas
tal como os sentem e vêem as pessoas comuns e não os defensores de todas as
ortodoxias em voga, sejam elas quais forem.
É que nisto de populismos é
preciso ter muito cuidado: sabe-se como começam e como proliferam, mas não se
sabe como acabam. No hipotético saldo final, podem trazer correcções à
democracia ou constituir uma ameaça a ela. Tudo depende de diversos factores
difíceis de controlar. Mas a púdica e hipócrita atitude agora mais em uso, do
género “credo, cruzes, t’arrenego”,
não vai contribuir para a pacificação social nem para a sanidade do
funcionamento do sistema político. As pressões demasiado tempo comprimidas
acabam por rebentar. E os danos são imprevisíveis.
quarta-feira, 15 de março de 2017
A grande ameaça
Se o actual descontrolo migratório continuar, não será
a Europa a integrar os imigrantes, serão os imigrantes a desintegrar a Europa.
terça-feira, 14 de março de 2017
Feminilidade e feminismo
Ser feminista não impede ser feminina. Pelo contrário, é parte essencial.
Para uma mulher, adoptar comportamentos, preferências ou padrões tipicamente masculinos pode ser uma questão de escolha, de gosto ou de temperamento, mas não é necessariamente uma afirmação de si nem uma emulação de género. Pode ser apenas mimetismo, o que bem vistas as coisas, é a opção menos feminista que há, logo a seguir à humilhação e à subserviência.
O verdadeiro feminismo não esconde as semelhanças, mas assume as diferenças.
Para uma mulher, adoptar comportamentos, preferências ou padrões tipicamente masculinos pode ser uma questão de escolha, de gosto ou de temperamento, mas não é necessariamente uma afirmação de si nem uma emulação de género. Pode ser apenas mimetismo, o que bem vistas as coisas, é a opção menos feminista que há, logo a seguir à humilhação e à subserviência.
O verdadeiro feminismo não esconde as semelhanças, mas assume as diferenças.
sábado, 11 de março de 2017
O que é o populismo, afinal? (2)
1. Há não
muito tempo atrás, num semanário de grande tiragem, um jornalista descrevia o
actual exercício da função presidencial por Marcelo Rebelo de Sousa como um
populismo moderado e ao centro, chique e à portuguesa, somando apoios à
esquerda e à direita, e distinguindo-se dos populismos radicais por não
pretender crispar ou dividir, mas “fazer pontes, sarar feridas e somar
energias”.
Logo à primeira impressão,
deparamos aqui com três pequenas surpresas: primeira, numa era de populismos
radicais e em que se constata a tendência para ver no próprio radicalismo um
dos ingredientes fundamentais do fenómeno, é‑nos apresentada a noção de um
populismo moderado; segunda, este é descrito como irradiando do centro e
estabelecendo pontes, ou seja, mais ou menos equidistante dos extremos do
espectro político; e terceira, trata-se de um populismo “chique”, isto é, popular
mas não popularucho, com o seu quê de bom tom e bom gosto, não desagradando
portanto às próprias elites e primando por um certo garbo interventivo, enfim,
um populismo com estilo.
Para nosso aparente alívio,
ficamos assim a saber que populismo não é necessariamente sinónimo de
extremismo, conflitualidade ou grosseria. Valha-nos isso. Não obstante, embora
esta descrição de um estilo político peculiar seja bastante ilustrativa, talvez
não deva muito ao rigor dos termos. Há nela uma certa confusão entre populismo
e a busca deliberada da popularidade. Pode haver pontos de contacto ou de
intersecção entre as duas coisas, mas é bastante forçado falar de populismo
quando a popularidade é obtida sem ser a qualquer preço, ou seja, com critério,
com escrúpulo e com princípios. E sobretudo se não pretende minimamente
subverter o establishment, mas apenas
inundá-lo com a sua influência e condicioná-lo na sua actuação, sem qualquer desrespeito
de normas constitucionais.
2. Mais
recentemente, surgiu também na nossa imprensa um artigo traduzido de um
prestigiado jornal inglês, no qual se falava dos riscos dos populismos
centristas, convocando à parada exemplos tão heterogéneos como Berlusconi e
Matteo Renzi, Beppe Grilo ou até o ex-chanceler alemão Gerard Schroeder,
antecessor de Angela Merkel. O critério de uma tal mistura é bastante
discutível. Mas, desta perspectiva, salta aos olhos que o centro político pode
estar bem mais povoado de populismos do que desprevenidamente supúnhamos, se os
tomarmos apenas como um exercício incaracterístico, inconsequente ou heterodoxo
do poder, ou como a disputa dele por métodos irreverentes e retórica
iconoclasta, desafiando a classificação estereotipada de esquerda ou direita e
não encaixando nos padrões de actuação a que nos habituaram os partidos
tradicionais.
No entanto, se adoptarmos este
conceito simplista, chocamos com algumas dificuldades. Quando o critério
principal da governação ou das várias oposições assenta na adopção das
orientações que melhor sirvam o propósito de preservar ou disputar parcelas de
poder, sem qualquer visão estratégica que contemple o interesse geral ou o
avanço real do país, esgotando-se portanto no mero propósito de contentar ou
aliciar eleitores e clientelas, pouco importa até o estilo utilizado, porque
nesse caso o populismo infecta a própria substância da acção política. A maior
ou menor sofisticação do aparato ideológico torna-se então um pormenor
secundário, embora não de somenos. O poder é arvorado como um fim em sim mesmo,
ou como algo gerador de recompensas, não como um meio para atingir objectivos
definidos que se traduzam em progresso social, económico ou cultural. Trata-se,
portanto, de uma apropriação indevida do poder democrático, que desvirtua a sua
função e finalidade. E o que prevalece, nesse caso, não é a avaliação do mérito
e realismo do que se faz ou pretende fazer, mas reunir sem grandes embaraços
éticos todos os ingredientes de acção e de retórica que possam agradar a uma
grande quantidade de eleitores, nem que para tal seja indispensável
trapaceá-los. É a isso que assistimos correntemente, é esse o pathos actual de muitas escaramuças
partidárias.
Ora deste tipo de populismo mais
básico está o panorama político repleto. E nem era necessário que alguém
salientasse que ele não é de forma alguma isento de riscos, embora não sendo
extremista. As populações dos países mal governados que o digam. Mas torna-se
difícil destrinçá‑lo da mera demagogia, senão por um único aspecto: é que à
demagogia se concede ainda o benefício da dúvida de poder ser utilizada em prol
de alguma visão estratégica, enquanto tal possibilidade se nega ao populismo. E
é precisamente aí que reside o erro.
Não encontrar estratégia nos
populismos em voga é cegueira voluntária. E assim como é deficiência de análise
não distinguir entre populismo e demagogia, é-o também a utilização
indiscriminada do termo para designar todos os movimentos políticos que medram
à margem do espectro tradicional da representação política.
3. A
demagogia não precisa de estratégia para prosperar. Basta-lhe o oportunismo de
actuação e a habilidade táctica. No limite, pode até contentar-se com a mera
fruição pessoal e clientelar do poder. Nem sequer precisa de uma ideologia
consistente, basta-lhe saber manipular as opiniões e os humores de uma parte do
eleitorado.
Mas alguns dos populismos que
hoje singram não se limitam a acicatar ou aproveitar “estados de alma”,
descontentamentos, irreverências ou “ideias fracturantes”. Podem ser uma
insurgência contra o “politicamente correcto” ou contra qualquer tradicional
“arco da governabilidade”, mas não é só disso que se alimentam nem é só por
isso que engrossam. Apoiam-se num sentimento popular cada vez mais difundido,
criam e alargam novos espaços de opinião pública, revelam uma sofisticação
doutrinária e estratégica crescentes. E estão longe de visar o poder apenas
como um fim em si mesmo.
Digamos mais: ao contrário do que
muitos pretendem, estão longe de ser apenas um exercício de baixa política ou
uma onda de irracionalidade que ameaça alastrar até conquistar maiorias ou
tornar-se incontornável em futuras coligações de poder. Ao invés de muitos
governos em funções, alguns dos chamados populismos sabem bem para onde querem
ir e percebem minimamente o que é preciso reformar; e o seu ideário, pelo menos
ao nível das lideranças, já não mostra menos consistência do que as cartilhas
ideológicas professadas por directórios partidários de vários quadrantes.
4. Goste-se
ou não, os populismos representam uma reacção cada vez mais enérgica a muitos
erros e abusos que têm sido cometidos, não só na política interna dos países
europeus, como na política europeia em geral (e com outros contornos, também na
norte-americana). Erros e abusos esses que não falta quem queira perpetuar,
apesar dos resultados que estão à vista, numa clara demonstração de prepotência
da ideologia sobre o realismo. Mas a reacção gerada não consiste apenas em vago
descontentamento que alguém se encarrega de tentar manipular ou encabeçar. Tem muito
mais densidade do que isso.
Não é portanto assisado falar
displicentemente de populismos sempre que surgem opiniões, movimentos ou
lideranças que não encaixam no catálogo tradicional das opções ideológicas e
partidárias. Não obstante a sua diversidade e diferentes graus de sofisticação
intelectual, os populismos em ascensão têm mais consistência e fundamento do
que se pretende atribuir-lhes. E apesar da atenção que lhes dedica, a imprensa
em geral trata-os com desdém e revela em relação a eles uma certa ausência de
espírito crítico que se traduz precisamente num claro excesso de criticismo.
Não há, em geral, a preocupação de distinguir o trigo do joio e de perceber o
que realmente se passa. O populismo parece um mal em si mesmo. Mas não. O mal
em si mesmo é que fortalece cada um dos populismos. Contudo, estranhamente,
poucos ousam nomeá‑lo com todas as letras. Porquê? Porque apesar de todas as
muitas irreverências do nosso tempo, continuam a existir alguns tabus. Mesmo
para a imprensa.
5. Entretanto,
como pano de fundo, alastra um crescente mal-estar no mundo ocidental,
sobretudo na Europa e nos Estados Unidos da América, que tem causas idênticas,
mas que é alvo das explicações maís díspares, muitas delas apenas
estereotipadas, especulativas, impressionistas ou erráticas. Há uma resistência
obstinada em apontar o dedo às verdadeiras causas dos populismos, dado que elas
chocam de frente com o “politicamente correcto” dos nossos dias, em várias
versões e quadrantes. E é também por isso que os chamados “populismos”
(incluindo os que o são, os que apenas parecem sê-lo e os que arbitrariamente
vêm sendo designados como tal) crescem simultaneamente à esquerda, à direita e
ao centro.
Pode haver diferentes
interpretações sobre a raiz dos problemas actuais. Mas uma coisa é certa: os
rótulos superficiais e apressados sempre serviram para mascarar o pouco
entendimento das coisas, umas vezes por mera incapacidade de entendê-las,
outras vezes por falta de vontade. Os tabus políticos em vigor colaboram em
ambos os casos.
Eis a questão fundamental que
deveria preocupar-nos: que mal-estar geral é esse, tão intenso e omnipresente,
que gera populismos em ascensão vertiginosa em tantos países quase em
simultâneo? Não, não é a alegada disfuncionalidade do euro. Nem a globalização
em abstracto. Nem a irracionalidade de certas políticas financeiras e
monetárias. Nem tão-pouco o facto de o projecto europeu marcar passo e se
acentuarem as divergências regionais. Tudo isso já existia antes de
proliferarem os populismos. O fenómeno crucial é outro. Mas seja ele qual for,
não encontra expressão nem resposta adequada nos partidos tradicionais. É por
isso que emergem os outros, obviamente.
Esta impressionante vaga de fundo
surge em contracorrente com alguns dos valores, códigos, catecismos, rituais,
ilusões e hipocrisias que foram adoptados durante décadas pelos partidos e
ideologias do costume. A opinião pública está a mudar na sua composição, a
ritmo acelerado, sem que as instituições e os média consigam acompanhar o
passo. E o facto de os jornalistas e comentadores estarem maioritariamente a errar
o alvo nas suas análises contribui enormemente para que as opiniões e simpatias
das pessoas inconformadas fiquem acantonadas em movimentos políticos
alternativos, emergindo das várias brechas do sistema politico. Mas não se limitam
a ocupar os espaços vazios, comprimem os espaços dos outros, ganhando progressivamente
terreno. E já não é possível despachá-los a todos, como simples lixo, para o
caixote dos extremismos. Como pode ver-se, a “peste” está a alastrar depressa e
bem. Mas será mesmo de uma “peste” que se trata?
6. Que
espera a imprensa para levar realmente a sério este novo fenómeno,
compreendendo-o nos seus fundamentos e na sua amplitude, em vez de tanto se
empenhar em demonizá-lo nas suas múltiplas manifestações, atitude essa que não
nos levará a lado nenhum, excepto a um impasse duradouro e a um cisma social?
Detectar nos populismos apenas a ameaça de um qualquer retrocesso histórico é
superficial e enganoso. Repito: eles trazem em si algo de novo e é preciso
perceber o quê. De outro modo, quem alimentar o tabu estará apenas a contribuir
para um diálogo de surdos. Ora não é para isso que a imprensa serve.
Se quisermos começar a levantar a
ponta do véu, teremos de começar a falar desapaixonadamente sobre as reais dimensões,
as consequências cada vez mais devastadoras e os riscos potenciais de várias migrações
descontroladas: de pessoas, de capitais, de empresas, de empregos, de receitas
fiscais, de poderes decisórios… e de culturas que literalmente invadem bastiões
alheios.
Sob variados aspectos, andamos há
muito tempo a brincar com o fogo, e agora vai ser difícil apagá-lo. Mas virar‑lhe
sobranceiramente as costas não ajuda nada. Pelo contrário, podemos todos acabar
queimados. Acautelemo-nos, portanto. Os populismos vieram para ficar e é ainda imprevisível
como vão evoluir. Mas não lhes faltam razões para existir e crescer, e não é
boa política ignorá-las nem continuar a tentar encostá-las desdenhosamente às
cordas. Essas razões têm de ser seriamente consideradas e rapidamente trazidas
para o debate político dito “normal”, sem preconceitos nem tabus. E os
problemas a que elas se referem têm de ser rapidamente enfrentados, antes que
seja tarde demais para a paz social.
Em suma: os chamados “populismos”
estão muito longe de ser meras manifestações de irracionalidade colectiva. A pior
irracionalidade poderá consistir em nem sequer tentar perceber as razões que
lhes assistem.
sábado, 25 de fevereiro de 2017
Um diagnóstico invertido
Frequentemente se lê e ouve que um dos
problemas essenciais da Europa de hoje é o afastamento dos cidadãos em relação
às instituições europeias. Errado. Esse diagnóstico está feito ao contrário: um
dos problemas essenciais da Europa de hoje é o afastamento das instituições
europeias em relação aos cidadãos.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
O que é o populismo, afinal? (1)
Por estes dias, abundam as
definições de populismo e outras tantas utilizações arbitrárias do termo não
apoiadas em definição nenhuma. Reina uma certa confusão.
O populismo, tal como o racismo e
a xenofobia, passou a querer significar tantas coisas diferentes, entendíveis e
aplicáveis segundo as circunstâncias e os países, que já não se sabe ao certo o
que significa. Ou melhor, sabe-se, mas o significado original é já talvez o que
menos se utiliza. Esses três rótulos desvincularam-se dos respectivos
conceitos, ou então (o que talvez seja mais verdadeiro) tornaram-se conceitos
multiusos, versáteis, indefinidos, dos quais ressalta sobretudo a carga
negativa e a condenação implícita que se quer atribuir a algo.
Como eu prefiro dizer, estes são
“conceitos-panaceia”: servem para muitas e diversas ocasiões em que se quer
anatematizar comportamentos ou opções alheias, e que, à falta de melhor, se
podem aplicar a esmo e sem mais justificações. Precauções, então, também não
são necessárias. Parte-se logo do princípio de que com eles se designa alguma
maleita política ou moral que nos assola, ou às sociedades em geral, e que, por
suposto, só afecta a saúde mental dos outros. Lançar mão de tais conceitos,
independentemente do contexto e do bem-fundado do uso, parece já servir para começar
a exorcizar o mal.
Digamo-lo por outras palavras:
nos dias que correm, ser acusado ou suspeito de populismo, racismo ou
xenofobia, seja lá o que for que alguém queira dizer com isso, significa que se
merece ser excomungado, ostracizado ou retirado do rol das pessoas decentes.
Nada menos. E é quanto basta para gerar de imediato um clima de hostilidade.
Na forma mais benigna deste
desvario, houve quem tentasse assimilar o populismo à pura demagogia. Mas nesse
caso, se o tentássemos combater a preceito, acabaríamos pior. Ficaríamos sem
democracia, porque ficaríamos sem partidos. Haverá algum deles que,
salvaguardadas as diferenças de intensidade e de estilo, não seja profundamente
demagógico? Não andam todos eles a prometer muito mais do que podem (ou
pretendem) cumprir? Até os militantes mais convictos, quando usam os cinco
minutos anuais de consciência e bom senso que se permitem a si próprios, ficam
a saber isso. Os mais intuitivos e os mais hipócritas sabem-no logo de imediato
ou mesmo de antemão, mas também não levam a mal. Consideram que a demagogia faz
parte do jogo político. E, infelizmente, faz. Pode-se confrontá-la, mas não se
sabe a maneira de a evitar.
Portanto, o que distingue o
populismo não é a demagogia, nem sequer alguma espécie particular de demagogia.
Ela está em todo o espectro político, em doses e roupagens variáveis. Não será
demagogia uma certa banda do nosso hemisfério parlamentar defender um
determinado naipe de medidas e proclamar que “não há alternativa”? Há sempre
alternativas. Não será também demagogia um outro quadrante celebrar os
remedeios habilidosos ou os pequenos sucessos transitórios e artificiais como
se fossem a verdadeira resolução dos problemas de fundo, ou o caminho adequado
para ela? Navegar à bolina não é a melhor maneira de chegar ao destino
pretendido. E não será ainda demagogia, como fazem outros sectores, prometer e
afiançar ao eleitorado tudo e mais alguma coisa, indiferentes a
constrangimentos externos e orçamentais, como se a realidade não existisse ou
fosse simplesmente aquilo que em cada momento se quiser? Essa é a melhor
receita para o desastre.
Se fosse possível reduzir o
populismo à demagogia exacerbada, ou a uma certa variante dela, ou à mera
conjugação de alguns dos ingredientes dela, ainda assim teríamos pano para
mangas. Mas não se trata disso. Estamos perante um fenómeno diferente. E com a
agravante de que não há um só populismo, mas vários, e alguns deles são de
sinal oposto.
Para nos entendermos, vai ser
preciso desembaraçar a meada. Até porque já não falta por aí quem chame
populismo à simples tentativa de chamar a atenção para os factos incómodos ou
para as verdades inconvenientes.
Em todo o Ocidente, no que
respeita à terminologia política, estamos prestes a construir uma nova torre de
Babel. E um dos efeitos disso pode vir a ser uma pandemia pior do que a rápida
expansão da demagogia.
Por que digo isto? Porque, face
aos fenómenos sociais que grassam nesta nossa parte do mundo, e atendendo à
velocidade com que alastram, fazer diagnósticos errados não é apenas péssimo, é
mortífero. Nem sequer acertar no nome das coisas, mais do que não perceber os
sintomas, significa não perceber as causas. E quem não percebe as causas
dificilmente poderá acertar nos antídotos. O prognóstico, portanto, é
assustador.
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